Comunicado Importante - 3 contos do blog serão publicados

É com muito orgulho que venho anunciar, que eu Debby Lennon e Sandra Franzoso iremos participar da antologia Jogos Criminais. A Antologia será lançada no dia 15/01/2011, Na Biblioteca Viriato Correa, situada a Rua Sena Madureira, 298 - Vila Mariana. Meus contos Anjo Perdido e Joana e Maria, já foram postados aqui no blog e agora está aperfeitoado e com mudanças no final,o mesmo acontece com o conto O Noivado da Sandra. Maiores informações em breve.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Amor e Morte

Eu sobre ela. Nossos corpos unidos bailando com leveza, em sintonia. Aquela boca, pele e curvas, senti-me enfeitiçado. Seu modo de amar, de se entregar, de se contorcer conforme se aproximava o ápice do prazer. Bocas que se buscavam, mãos que se apertavam, desejo que enlouquecia. Ela vibrando em meus braços, eu penetrando-a com loucura. Sussurros, gemidos, gritos, gritos e mais gritos. Gritos meus, em êxtase, gritos dela, apavorada, a dor a dominá-la. Berros horripilantes. O sorriso, de repente, se desfez daqueles lábios rosados e carnudos. Os olhos, de um azul intenso, pararam. Nas unhas dela, resquício da minha pele arranhada no auge de seu desespero. Nas minhas mãos, um punhal a dilacerar seus orgãos. Que pena, amor, que pena. Nunca mais sentirei o calor do seu corpo a me aquecer. Esse corpo que agora jaz inerte sobre meus lençóis ensanguentados. Sandra F.

domingo, 11 de outubro de 2009

sábado, 10 de outubro de 2009

JigSaw

By N.E.I.


Pessoal, vou fazer algo diferente hoje: vou comentar um pouco sobre um personagem e um filme, onde o Lado Negro da Mente se faz presente.


Creio que a grande maioria, se não viu, já ouviu falar num filme (esta no número 5 já) chamado "Jogos Mortais". Trata-se de um dos filmes de terror mais comentados e vistos dos últimos tempos, muito famoso pela originalidade.


Sem querer tirar a graça de quem não assistiu, o personagem central, o psicopata apelidado como JigSaw proporciona para determinadas pessoas (pessoas com pouco ou nenhum valor pela vida) "jogos mortais", onde elas precisam se sacrificar, ou fazer algo extremamente difícil, ou terrível, ou doloroso, para se safar da morte.


A história de JigSaw é bastante simples: ele é uma pessoa normal, que é diagnosticado com um tumor cerebral inoperável. Com este diagnóstico médico, ele dedica sua vida a "castigar" aqueles que são agraciados com muita saúde, mas pouco amor pela vida. É muito interessante, recomendo a todo que assistam os filmes. Além de original, criativo e muito bem feito, ainda tem tudo a ver com nossa temática do blog.


Semana que vem tem mais.

Saudações,

N.E.I.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Crueldade

Crueldade

Vai, vai “mermão”. Anda logo com isso. Passa a grana logo, meu.
Ca calma...
Que calma, véio. Anda logo. Tá demorando muito.
Assim começava um assalto a um posto de gasolina de beira de estrada. O meliante era baixo, por volta de 1,60 m. Aparentava ter no máximo 25 anos. Barba rala e o rosto sujo, juntamente com uma touca preta, dificultava a identificação.
O mais impressionante eram os olhos. Eram pequenos e estavam vermelhos. Transmitiam uma maldade, um sadismo difícil de descrever.
Ficou de tocaia ate o momento que o caixa passou para recolher o numerário dos frentistas. Era inicio de feriado prolongado e o posto teve movimento o dia todo.
Estava acabando o turno do caixa e ele, foi recolher o dinheiro para conferência e a guarda do movimento do dia.
O individuo tinha as roupas sujas, a calça larga e suja de barro, estava amarrada com um barbante. Entrou no escritório do posto sem ninguém perceber, parecia um pedinte. Foi quando anunciou o assalto.
Portava um revolver velho, um 38 talvez. Balançava muito os braços enquanto falava, Parecia muito nervoso e alucinado. Talvez estivesse sob o efeito de drogas. Mas o mais impressionante eram os olhos. Eram pequenos e estavam vermelhos. Transmitiam uma maldade, um sadismo difícil de descrever.
Gritava o tempo todo. Pedia dinheiro, não só o que estava nas gavetas mas o que estava no cofre também.
O caixa estava apavorado. Era uma situação inusitada. Já havia ouvido e visto casos semelhantes, mas nunca se acha que vai acontecer, até que aconteça.
O assaltante continuava gritando. O vidro fumê e grosso do escritório, impedia que as pessoas de fora percebessem que estava acontecendo.
O caixa já estava abrindo o cofre, quando o cliente entrou no escritório. O bandido assustou-se com a repentina intromissão e disparou a arma. O cofre já estava aberto quando o projétil deflagrado atingiu a tranca da porta do cofre, que é de puro aço, ricocheteando e atingindo o braço esquerdo do meliante que, apavorado e com dor, sai em disparada, sem levar nada. No caminho bateu com a arma no rosto do fregues.
Correu para trás do posto e se embrenhou no mato. Com muita dor no braço, livrou-se da arma para fazer pressão no ferimento.
Correu por algumas horas no meio do mato, tropeçando e caindo várias vezes.
Alcançara uma vila próximo ao rio. Uma das casas estava com a luz acessa. Aproximou-se e os cães começaram a ladrar. A mulher olhou pelas frestas da janela e viu apenas um homem maltrapilho, sujo e com um pedaço de pano amarrado no braço esquerdo. Parecia ferido, pois segurava o braço contra o peito com a mão direita e uma expressão de dor.
- Ó de casa? Tem alguém aí? Eu estou com fome. Só quero um prato de comida.
A moça ficou olhando, mas pelo jeito ele não sairia dali.
- Eu sei que tem alguém em casa. Só quero um pouco de comida e vou embora.
Ela foi ate a cozinha e pegou o resto de comida que sobrou da janta, comida que ela ia dar aos cachorros no dia seguinte, fez um prato e foi até a porta.
Quando o meliante a viu na porta aberta, percebeu a silhueta de grávida. Devia faltar poucas semanas para o nascimento, devido ao tamanho da barriga.
Ela o chamou para pegar o prato. Ele se aproximou da porta e pegou o prato com o braço bom, sentou-se no degrau e apoiou o prato nos joelhos.
- Não se preocupe moça, não vou demorar.
- Como você se machucou? - perguntou ela.
Ele já tinha colocado três colheradas na boca, quando parou de mastigar. Seus olhos começaram a se injetar de vermelho, a respiração ficou rápida e descompassada. O bandido atirou o prato longe e sem o menor aviso, deu um potente soco na barriga da gestante. Essa, por sua vez, caiu de costas gritando de dor e sentindo contrações.
- Vou te ensinar a não se meter na vida dos outros.
A mulher começou a entrar em trabalho de parto. Tremia e sua barriga mexia muito. Depois de alguns momentos de sofrimento e dor a criança nascera, ou melhor foi arrancada pelo bandido, que até o momento assistia a tudo calmamente, pegou a criança ainda suja, cortou o cordão com uma faca e levou-a até os fundos da casa e atirou-o no rio.
Ficou observando aquele feto se debatendo na água e o rio seguindo seu curso levando o pequeno rebento embora. Ele olhava tudo extasiado dando gargalhadas. Ria muito e sem parar, parecia que estava assistindo a um programa de comédia.

A moça finalmente abre os olhos e percebe que não foi um pesadelo. Foi real e bem real. Está acontecendo agora. Aquele maníaco ainda estava lá, na sua casa e rindo.
Tirando forças não se sabe de onde, movida pelo ódio e pela vingança, ela tenta se levantar. Escorrega no sangue e na água que está a sua volta e tenta novamente. Segue para os fundos, escorando nas paredes e nos móveis. Vai até a área externa, onde o marido guarda as ferramentas.
O maníaco alucinado ainda ria quando sente uma forte dor no braço direito e o vê caindo no chão. Tenta se virar quando se desequilibra e cai sentado, ele para um lado e sua perna esquerda para o outro. Sem entender, vê a mulher próxima a ele, agora com a barriga murcha e um penado na mão. Mal teve tempo de falar, quando ela desferiu outro golpe, agora no lado esquerdo do tronco, na altura do cotovelo. Como ele estava com o braço dobrado e a força do impacto foi tão grande, que cortou o o braço em três partes e ainda enterrou na costela. A ferramenta ficou presa no tronco da vítima.
Não satisfeita com o resultado, a mulher voltou para casa e de lá saiu com uma foice na mão para acabar o serviço.
Vizinhos viram a moça vagando pela rua de noite, com as roupas ensanguentadas e chamaram socorro.
Na ambulância, ela dizia palavras sem nexo. A única coisa que parecia compreensível era:
“meu bebê foi embora, meu bebê foi embora”

Jack Sawyer

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Nem todos serão cordeiros - Capítulo 2

A noite nas grandes praças do centro de São Paulo ainda o impressionava, apesar dos quase seis anos vivenciando-a. A escuridão derramando-se sobre as sutilezas da arquitetura da majestosa Catedral, os espelhos d'água refletindo as luzes excessivamente artificiais da iluminação pública, os bancos da praça ocupados por um ou outro mendigo mais corajoso, num sono descuidado e convidativo ao espancamento e morte. Grupos de crianças perdidas, dormindo amontoadas em cantos mais escuros e fronteiriços à praça, alguns ainda acordados, consumindo mais uma pedra.

Em nada a cena lembrava a fúria vencedora do dia claro e corrido, desenhado por vitoriosos ou outros tantos que ainda buscavam seu lugar ao sol, quando o espaço era disputado em milímetros por pedestres e ambulantes. Após o anoitecer, a praça pertencia aos excluídos. Aqueles à quem já não importava a conquista, o sucesso – Apenas mais um dia – era tudo o que almejavam estes, pensou Glauco, enquanto deslizava quase sorrateiro pelo calçadão. Venceu a distância até os degraus da Igreja e sentou-se por ali, para poder contemplar melhor seus possíveis inimigos. E também aos “alvos”. 

Meteu a mão no bolso de seu paletó encardido, bastante gasto pelos anos de uso – O preço de minha invisibilidade – e apanhou a caixa de fósforos e o maço de Eight. Apenas dois no maço - E nenhum camelô com coragem suficiente para enfrentar o abandono desta terra - A noite seria longa, sem poder fumar. Acendeu um, ainda hesitante pela imprudência. O pulso de uma chama, o estalo do fósforo. Qualquer coisa neste ambiente poderia atrair a atenção de outros. Mas a sua necessidade de repor a nicotina era maior que a razão. Encheu os pulmões, numa extenuante tragada. Ao mesmo tempo, aguçou os ouvidos, como um pastor alemão, para compensar a desnecessária exposição de seu personagem. Focou a atenção num grupo de adolescentes, há uns cinquenta metros de onde estava, quase na esquina da Senador Feijó. O mais velho, talvez tivesse uns dezessete anos. Os outros, bem menores. Talvez na faixa de treze ou quatorze anos, sentados sob a proteção do maior - Muito imprudentes também – analisou ao ver as fagulhas das pedras de crack saindo dos cachimbos. Contou os alvos – Quatro em transe. Um em pé, possivelmente entorpecido também – enfiou a mão dentro de seu saco de quinquilharias. A barra de ferro estava ali. Uns doze quilos de metal maciço, suficientemente rijo e pesado para esmigalhar alguns crânios. Mas não iria se apressar em fazê-lo. Seu cigarro estava quase por inteiro, a espera de ser fumado com paixão. E aqueles moleques não iriam a lugar algum após se entupirem de crack. Deu mais uma voraz tragada e soltou a fumaça em fragmentos miúdos, quase como numa crise de soluços.

Por quantas mortes fora responsável durante os últimos seis anos? Drogados, skin-heads, punks, alguns policiais e até inocentes que estavam no lugar errado? Cem, duzentas, mil, mais? Não guardava esse número. Apenas uma execução fora-lhe marcante, doída. Todas as demais – Apenas trabalho...

Deixou-se levar por algumas lembranças persistentes. O telefonema para o se celular. Sua chegada em casa, no meio da tarde, os corpos de sua esposa e de sua filha ainda pré-adolescente sobre o tapete da sala de visitas. Muito sangue e dor tatuada em suas faces mortas. Um drogado, a necessidade da droga, do dinheiro para adquiri-la. Um taco de beisebol, duas mortes, outras tantas vidas destruídas. Um maldito drogado de dezesseis anos – Meu próprio filho – E a sensação de impotência, de ter errado muito. Educação, criação, repreensões na medida exata e na hora precisa... não conseguia equacionar a questão. Não conseguia respostas. Apenas a depressão. Oito longos meses afastado de sua Metalúrgica, trancado em casa, chorando em sessões com seu psiquiatra, se entupindo de antidepressivos – E pra que? - Para aplacar o ódio que sentia por si próprio e pelo seu filho? - Por aquele canalha que me tirou tudo, tudo mesmo?

Encontraria suas respostas nas ruas. Deixou os remédios de lado, a análise, os amigos. E foi atrás de seu filho. Sabia que andava pelas ruas. Atras de mais drogas e longe da polícia. Tinha a certeza de que iria encontrá-lo.

De fato, nem foi uma longa busca. Duas semanas vivendo como maltrapilho, morador de rua, e lá estava Diogo. Magro, quase um cadáver. Encostado numa das árvores da República com mais outros dois amigos. Nem reconheceu Glauco, com sua imensa barba postiça, roupas imundas e rasgadas, pele coberta por uma crosta de sujeira e fedor. Ninguém o reconheceria mesmo. Ninguém se aproximava o bastante para isso. Nem com um olhar. Já esbarrara em diretores de sua empresa, que tinha sede administrativa ali na Barão de Itapetininga. Como sua própria secretária também. Nenhum deles lançou sequer um olhar para ele. Distanciaram-se mais meio metro ao perceberem aquela presença incomoda, recostado sobre uma parede qualquer – Meu manto de invisibilidade. Meus super poderes – sorriu, concluindo.

Só teria que esperar a hora certa, para abordar Diogo. Algumas horas mais e teria sua vida de volta. A vida que Diogo lhe roubara. Olhou para um dos relógios da praça – Nove da noite. Cedo ainda – teria que ser a sombra do moleque até a madrugada, para que não lhe escapasse.

O grito abafado de uma criança trouxe-o à Sé novamente. Atentou para o som, procurando identificar sua origem – As escadarias do metrô – Apagou seu cigarro e caminhou apressado, porém silencioso. Abordou a escadaria lateralmente. Uma pequena olhadela e viu três moleques, não mais que quinze anos, subjugando um outro de oito ou nove anos, para que fosse estuprado pelo maior do grupo. Glauco empunhou sua barra de ferro e, num pulo calculado, voou sobre eles. Alguns estalos de ossos partindo, gritos, sangue respingando para todos os lados. Questão de segundos. E apenas o menino de oito anos olhava-o nos olhos, apavorado.

- Vem. Temos que sair rápido daqui, antes que alguém nos veja.

E assim, o Seu Glauco entrou em minha história - Glauco - Como um misterioso herói underground de HQs. Eu senti repulsa por ele, no primeiro instante. Por seu cheiro, por sua horrenda aparência. Mas era-lhe grato. Na minha primeira noite na rua, ele apareceu e me resgatou de um massacre. Lembrei de minha mãe, de seu alerta sobre o mundo. E então, pensei em Glauco como um pai. O que nunca tive. E o que entrava agora na minha vida, para restituir-me uma família. Sentia-me feliz, apesar do corpo e alma doloridos pela humilhação do estupro.

Sumimos, entre ruas escuras e becos. Passos apressados, porém não numa corrida, caminhamos rumo à Praça da República. Eu não imaginava minimamente as possibilidades que estavam se abrindo para mim. E nem ao mundo que eu viria a pertencer. O estranho mundo de Glauco.

continua na próxima sexta

não leu o Capitulo 1 -  Clique aqui e leia

sábado, 12 de setembro de 2009

Demasiada Loucura é o Mais Divino Juízo

Pessoal,


Depois de um tempo afastado, devido ao concurso de contos, retomo as postagens de sábado, abordando, desta vez, uma outra maneira de se falar sobre o que se passa dentro de nossa cacholinha. É o lado oculto da mente falando através de poemas, afinal, nada mais oculto na mente humana do que os versos que formam esta manifestação literária belíssima e tão pouco difundida, infelizmente.


Abaixo seguem três poemas que tem como temática a mente humana, e, não por acaso, poemas de três mestres.


Até o próximo sábado.


N.E.I.'.


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Demasiada Loucura é o Mais Divino Juízo


Demasiada Loucura é o mais divino Juízo -
Para um Olhar criterioso -
Demasiado Juízo - a mais severa Loucura -
É a Maioria que
Nisto, como em Tudo, prevalece -
Consente - e és são -
Objecta - és perigoso de imediato -
E acorrentado -


Emily Dickinson, em "Poemas e Cartas"


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A meu irmão

Eu tenho lido em mim, sei-me de cor,
Eu sei o nome ao meu estranho mal:
Eu sei que fui a renda dum vitral,
Que fui cipreste, caravela, dor!

Fui tudo que no mundo há de maior:
Fui cisne, e lírio, e águia, e catedral!
E fui, talvez, um verso de Nerval,
Ou, um cínico riso de Chamfort...

Fui a heráldica flor de agrestes cardos,
Deram as minhas mãos aroma aos nardos...
Deu cor ao eloendro a minha boca...

Ah! de Boabdil fui lágrima na Espanha!
E foi de lá que eu trouxe esta ânsia estranha,
Mágoa não sei de quê! Saudade louca!


Florbela Espanca, em "Livro de Sóror Saudade"


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Génio do Mal


Gostavas de tragar o universo inteiro,
Mulher impura e cruel! Teu peito carniceiro,
Para se exercitar no jogo singular,
Por dia um coração precisa devorar.
Os teus olhos, a arder, lembram as gambiarras
Das barracas de feira, e prendem como garras;
Usam com insolência os filtros infernais,
Levando a perdição às almas dos mortais.

Ó monstro surdo e cego, em maldades fecundo!
Engenho salutar, que exaure o sangue do mundo
Tu não sentes pudor? o pejo não te invade?
Nenhum espelho há que te mostre a verdade?
A grandeza do mal, com que tu folgas tanto.
Nunca, jamais, te fez recuar com espanto
Quando a Natura-mãe, com um fim ignorado,
— Ó mulher infernal, rainha do Pecado! —
Vai recorrer a ti para um génio formar?

Ó grandeza de lama! ó ignomínia sem par.


Charles Baudelaire, em "As Flores do Mal"

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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Nem todos serão cordeiros - Capítulo 1



De minha primeira infância, lembro-me muito pouco. Nos dias de calor, do fétido cheiro que vinha dos esgotos que corriam a céu aberto. Da coceira crônica em meu corpo, uma mescla da sujeira e das picadas dos insetos abundantes. Do chão rústico de cimento do barraco em que vivíamos e das ruas enlameadas e ingrimes pelas vielas da favela. De Dona Altamira, com quem ficávamos quando minha mãe ia ao trabalho ou quando passava a noite fora. E dos beliscões que a velha nos dava, quando chorávamos ou a desobedecíamos.



Das imagens de minha família, alguma coisa ficou. Mas tênues, suplantadas pelos conceitos e impressões adquiridas quando eu já tinha uma consciência mais apurada. Minha mãe, Bete, uma mulher até que bela, dentro das limitações impostas pela pobreza. Não haviam os cuidados necessários. Quando muito, um batom barato, alguma maquiagem mal feita, para as poucas ocasiões especiais que teve em sua vida.

Negra, cabelo ruim, sempre desgrenhados, dentição bastante prejudicada por caries e até ausências de dentes, já tinhas os peitos caídos pelas sucessivas gestações e pelo hábito de não suportá-los com um sutiã. Mas ainda chamava a atenção em nosso meio, quando saia à rua, com uma saia curta, colada às ancas, deixando a mostra suas coxas grossas e a bunda avantajada. Os homens do local, certamente imaginavam que havia muita safadeza a se fazer com uma mulher destas. E ela, não se fazia de rogada. Namorara muitos, engravidara mais quatro vezes durante o tempo em que convivemos. Tinha 23 anos e cinco filhos, quando eu fugi de casa.

Eu, o filho mais velho, parido sem o desejo de parir-me, aos 15 anos. Como aos meus outros três irmãos e uma irmã, esta a caçula, com seis meses de idade apenas. Nunca conheci meu pai, como meus outros irmãos também não viriam a saber quem eram os seus próprios. Nunca perguntei, ela nunca falou. Não falava de seus “homens”. Ficavam para trás, nas noites de forró e alguma cachaça. Foram incidentais em sua vida. Dependera deles para um momento, uma bebida, uma noite. Nóias da favela, de mesma idade e futuro presumido. Ou velhos aproveitadores de sua estupidez adolescente de outrora. Agora, transformada em desesperança e indiferença. Era sexo o que queriam? Então, abria as pernas, desfrutava de umas palavras amorosas, que nunca ouvia senão nua e submetida à satisfazê-los. Saciava-lhes as taras, suportava seus hábitos embriagados. Uma ervinha para relaxar, um lingerie ou bijuteria vagabunda, adquirida por R$ 5,00 dos marreteiros que as vendiam de bar em bar. Essa era sua vida. Não era perfeita, mas caminhava resoluta, entre os serviços de diarista doméstica e as tarefas de casa. Por vezes, nos acarinhava, fazia cócegas. Por outras, ralhava conosco. E chinelava nossas bundas, por alguma arte cometida.

Mas o que a enfurecia de fato, era quando brigávamos entre nós, irmãos. Lembro-me de uma vez, em especial. Eu tinha sete, meu irmão seis anos. E por disputarmos a tapas um carrinho de apenas três rodas, pego por ela em uma cesta de lixo, a caminho de casa. Ela caiu sobre nós dois como um raio da fúria divina. E cobriu-nos de chineladas. Desta feita, sem a menor preocupação de que o chinelo nos alcançasse as faces ou qualquer outra região do corpo. E quando se deu conta, ouviu enfim nossos apelos para que parasse, agarrou-nos pelas orelhas e assim, puxando-as com força, nos levou para a porta do barraco. Escancarou-a com um chute e apontando para as vielas estreitas e escuras gritou, com a voz transtornada:

- Vocês vão enfrentar isso sozinhos? Vocês vão enfrentar esse mundo aí de fora, sozinhos? Um sem o outro, sem a família, sem seus irmãos, não sobreviverão nem até a próxima esquina. Serão devorados, entendem? Estão me entendendo?

Tanto eu como meu irmão, mais a olhávamos, temerosos, do que para o cenário apontado por ela. Não tínhamos compreensão sobre o que falava. Mas jamais esqueceríamos suas palavras. Porque sentíamos que seriam importantes para a nossa sobrevivência. Só assim para entende-la e perdoar toda a sua fúria. Mas o fato, é que não me recordo de qualquer outra briga séria entre eu e meus irmãos. Um bate boca, um empurrão. Mas nada além disso. Bem ou mal, eu havia aprendido o que era uma família. E que seus membros se amparam mutuamente. Se protegem do mundo. Brigam, até matam se for preciso, para defenderem a integridade de um membro ameaçado ou ofendido. E minha mãe sabia disso. Havia aprendido da pior maneira: ninguém para defendê-la de seu destino e humilhações. Expulsa de casa ainda menina, por engravidar. Por me carregar em seu ventre. E ninguém para ampará-la. Nem um grito em seu favor, sequer.

Mas as coisas mudam. E nossa família também mudou. Uns dois meses após, Bete conheceu Agenor e o trouxe para morar em nosso barraco. Um sujeito de boa pinta, branco, pele morena de sol, cabelos loiros, olhos verdes, diversas tatuagens pelo corpo. Musculatura forjada em academias, sabe-se lá pagas com que dinheiro. Agenor não trabalhava. Mas tinha sempre seu maço de cigarros no bolso. Agenor. Nunca acordava antes das onze da manhã. Mas sua cerveja estava sempre geladinha, confortavelmente instalada em nossa geladeira quase vazia.

Conversa fácil, Agenor a agradava. Dizia-lhe juras de amor, a assediava até na nossa frente, com carinhos ousados e cochichos em seus ouvidos. E Bete sorria, gargalhava. Se trancavam no banheiro, único cômodo separado dos demais. Eu e meus irmãos, no cômodo único, ouvindo os sons estranhos que de lá vinham. Mas ele fazia bem para ela.

Seu permanente sorriso. Os carinhos que passou a dispensar aos filhos, o cuidado que passou a ter com o vestir-se, perfumar-se. Estava florescendo como mulher. Realizando-se no sonho do amor encontrado e compartilhado. Durante três meses, pude conhecer uma outra mãe: a Bete, que sonhava acordada. E sonhou e sonhou. Até que...

As palavras de Agenor já não eram tão doces. Era normal vê-lo pedir dinheiro para minha mãe – Não nasci para ficar preso dentro de um barraco. Vou jogar bilhar com os amigos – As lágrimas de minha mãe também se tornaram corriqueiras. Ela não falava nada. Nem para nós. Nem para ele. Tentara, mas ela a interrompera abruptamente, indagando se ela pretendia passar a “cuidar” de sua vida. Porque, se fosse assim, ele iria embora naquela noite mesmo. E ela calou, enquanto pode.

Fingia dormir, secando as lágrimas e engolindo o soluço, quando ele entrava cambaleante, de madrugada. Deitava-se ao lado dela. As vezes, desmaiava de bêbado. Noutras, matava sua fome de sexo, usufruindo o seu corpo. Nada mais.

E os sonhos de Bete foram-se, como vieram. Nos seus olhos, o retorno da indiferença e desesperança. Mas havia um componente novo. Algo que a machucava. Que arrancava lágrimas que antes não existiam. Havia a sensação de culpa. Por ter perdido a felicidade alcançada. De ter chegado tão perto, mas tão perto e...

Ela o amava? Não sei. Creio que amava mais a sensação de saber poder amar. E de ter sido amada. Ou crer nisso. E ver isso desfeito, arrancado de seus dias miseráveis, a alquebrou.

Ela ainda tentou. Criou coragem, reuniu o que ainda havia de dignidade em si. Recusou-se a abrir sua carteira, para que ele fosse a uma segunda rodada de bilhar com os amigos. Era frequente esse seu retorno lá pelas oito da noite, horário em que Bete já estaria em casa, após sua jornada diária e com algum dinheiro na bolsa. Agenor pedia, ela dava-lhe vinte, as vezes trinta reais, que ela sabia que seriam gastos em bebida e com outras. Como um dia, foram gastos com ela.

- Não – e foi a única palavra que a ouvi dizer. E então um primeiro tapa no rosto. Ela caiu. Ele ainda deu um chute em seu estômago. Eu pulei em cima dele. Mas o que podia um moleque de oito anos contra um homem formado, forte, no auge de seu vigor físico? Senti o impacto das costas de sua mão contra a minha face. Devo ter voado meio metro, de encontro a parede do barraco. Ele abaixou-se tranquilamente. Enfiou suas mãos nos bolsos da calça de minha mãe, que se contorcia ainda. Tirou o dinheiro. Contou os setenta reais da diária que ela recebera. Puxou uma das notas de dez e jogou sobre o rosto de Bete – Pro leite das crianças – Deu uma gargalhada e saiu pela porta.

Corri até minha mãe e a abracei. Meus outros irmãos, até agora encolhidos ao pé do sofá, também vieram. Demos um abraço, todos nós – Eu vou matar esse cara, mãe. Eu juro que vou! - E ela apenas abraçou-se em meu braço de criança. Sua cabeça sobre minhas pernas, uma mistura de sangue e lágrimas as umedecendo. Foi o momento mais feliz da minha vida. Sentir aquele calor de todos nós abraçados. Nos cuidando mutuamente. Como deve ser, em uma família.

Porém, a vida continuaria. E Agenor voltaria. Ela sabia, bem como nós. Então, Bete serviu-nos o jantar, uma sopa bastante pedaçuda com muitos legumes, como gostava de fazer nas noites frias. Antes das dez, estávamos em nossas camas. Silenciosos e atentos. O sono não vinha. Apenas a angústia nos apertando o peito.

Num horário incerto, Agenor entrou. Cambaleante como sempre, despiu-se totalmente e se deitou ao lado de Bete. Cochichava em seus ouvidos. Pedia desculpas, dizia ter perdido o controle, que ela o irritara, ele só queria uns trocos para beber com os amigos. Que não aconteceria de novo. Ele prometia. E até devolveu-lhe o dinheiro que não gastara: pouco mais de seis reais. Fizeram amor ali, na nossa frente. Como no início, quando ainda havia encanto nos olhos de minha mãe. E nessa hora, com o rosto ainda a latejar, odiei-a como nunca odiei alguém em minha vida.

A nova lua de mel durou alguns dias. Agenor preso em casa, feito besta arrancada de seu habitat, ralhava conosco na ausência de Bete. Enchendo-a de palavras amorosas, quando chegava do trabalho. Mas numa noite sem nenhum porquê especial... chutes mais fortes, socos em profusão. Um dia, noutro. Então, começamos, eu e meus irmãos a apanhar também, durante a ausência de nossa mãe. Por nada, por um olhar de ódio.

Não havia mais família. Eu não a amparava mais. Ela não se importava em ver nossos hematomas. E a vida apenas seguia. Um menino de oito anos sonhando com o dia que tivesse coragem para enfrentar aquela viela. Sem família. Só. E convicto de que sobreviveria, a qualquer custo.

Era um domingo de Dezembro, próximo ao natal. Acordei cedo. Não haviam mais aulas, mas mesmo assim, quis pular da cama as seis da manhã. Sem fazer barulho, aproveitando-me do sono pesado de Agenor e de minha mãe, após uma noite de bebedeira de ambos, mas ela só, em casa, e ele num bar. Fucei os bolsos da bermuda de Bete e tirei alguns trocados: R$ 28,40. - Minha herança – pensei ao enfiar o dinheiro no bolso e sair pela porta do barraco. A mochila escolar com umas poucas roupas e mais nada.

Na cabeça, a vontade de vencer. No coração, o desejo de um dia voltar. E me vingar de Agenor.


Gostou? Então leia também o Capítulo 2 - Clique aqui

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Lava-pés

Fábio olhou para seu relógio de pulso. O que viu, não foi nada bom – Quatro da madruga. Vai dar merda de novo.
Seus pensamentos não eram totalmente embriagados, porém nem absolutamente lúcidos. Tinha consumido uma boa quantidade de cerveja – E um conhaque! - para calibrar a libido. As sexta-feiras tinha essa liberdade provisória. Ou tivera, até que Marina o obrigara a confessar a infidelidade praticada – Nossa, que dia infernal...
Ainda eram-lhe vivas a lembrança do episódio. Do choro da mulher, das perguntas intermináveis, dos tantos “por ques” aflitos e de suas súplicas por compreensão e perdão – Porra, era um homem – e suportara bem a condição de casado por sete anos. Mas naquela noite, após infindáveis cervejas e gargalhadas entre amigos, Glorinha pareceu-lhe irresistível – Destino mesmo.
Uma mulher vulgar, que vestia-se apenas para se expor, para ressaltar sua fartura de carnes – Gordinha sim – Vulgar, falava obscenidades que nem os marmanjos se atreviam. Insinuante como uma serpente, cheia de toques com as mãos e resvaladas provocantes, tão devassa em pensamentos e atitudes. Tão diferente da sensatez e inteligência de Marina - Com resistir?
Sóbrio, atravessava a rua e fingia não vê-la. Mas após o consumo de álcool, preso ao mesmo recinto e conversas... - Ah, Glorinha... que trepada infernal que tivemos! - a mulher era mesmo diabólica numa cama. Todos os desejos satisfeitos, todas as curiosidades saciadas. E além dos limites, um quarto de descobertas pecaminosas.
Não teve como Marina deixar de perceber. Por mais que preferisse não tomar ciência do fato, Fábio mudará a olhos visto após o início de seu romance com Glorinha.
Marina até que tolerou o comportamento do marido por alguns meses. Foi vendo as noitadas de cerveja invadirem os dias úteis, os horários de retorno cada vez mais distantes. Até que algo se rompeu dentro dela. Tinha que saber, tinha que entender o porquê, o que faltava nela, Marina, como mulher?
Mas era fato sepultado, julgava Fábio. Após aquela noite de acertos de contas, há oito meses, as coisas voltaram a normalidade. Fábio ia ao trabalho, voltava para casa. Jantava e assistia TV com a esposa. E até o relacionamento sexual entre eles foi reavivado, por algumas semanas. Como nos tempos de namoro, faziam sexo todos os dias. Até duas vezes por noite – Se bem que... - Mas tinha que se acostumar. Nenhum prazer ou loucura valia a companhia de Marina. Uma mulher bela, dedicada, inteligente e fiel – Sim, principalmente fiel.
Fábio abriu a porta com todo o cuidado, evitando ao máximo qualquer ruído. Mesmo desconfiando de que nada lhe adiantaria tanto silêncio. E suas suspeitas estavam corretas.
Marina estava sentada no sofá da sala, abajur aceso. Fábio tentou ver se os olhos dela estavam inchados, por tanto chorar. Mas não. Apenas o olhava, serena.
- Marina, eu sei o que você está pensando. Mas...
- Pára, Fábio. A gente já teve nossa conversa. Você não precisa dizer nada. Alias, você não precisa nem inventar nada. Porque no mínimo, eu mereço a verdade. Fiz por merecer. Por meses. Por te tolerar, por suportar seu hálito de cerveja, seu cheiro de perfume barato. O sabor de sexo vulgar em sua boca...
- Marina...
- Ah, cala a boca, e vem dormir. Quando você estiver sóbrio, quando tiver um mínimo de vergonha na cara, conversaremos. Se... ah, deixa. Vamos dormir e amanhã veremos como fazer.
Dito assim, levantou-se e caminhou para o quarto. Fábio atrás, como um menino pego em flagrante delito pelos pais. Cabeça baixa, mudo, envergonhado – Que merda que eu fui fazer, Meu Deus... - lamentava-se em pensamentos.
No quarto, Marina tirou a camiseta e jogou-a no chão. Fábio ficou a admirá-la em sua nudez. A pele bem clara, contrastante com os cabelos negros e os lábios vermelhos. Olhos de um mel profundo. Nem magra, nem gorda. Seios médios, ligeiramente caídos pela ação do tempo. Mamilos rosados, abdômen quase inexistente, quadril estreito, porém acentuado na cintura. Enfim, uma mulher bonita, agradável de se ver – E decente - muito mais do que Glorinha, certamente – Ah, Glorinha... por que você teve que me provocar novamente?
Marina deitou-se na cama e olhou para Fábio – Então, não vem?
Fábio despiu-se, entre uma e outra cambaleada e deitou-se ao seu lado, mantendo uma relativa distância de segurança. Tinha medo de tocá-la. Tinha medo de que ela cobrasse-o por uma noite de sexo e ele falhasse, como da última vez em que brigaram. Álcool, vergonha, arrependimento, várias trepadas depravadas durante as últimas horas... uma combinação letal para seu desejo.
Mas desta feita, Marina não abriu a boca. Desligou a luz da luminária e condenou os dois a escuridão e ao silêncio. Fábio ainda demorou alguns minutos para ser vencido pelo cansaço. Mas nem as especulações sobre o “amanhã” lhe deram forças para mais.
Acordou com a velha dor de cabeça pós balada. Mas nem lhe incomodou tanto quanto o peso em seus braços. Quis trazer suas mão aos olhos, para coça-los e eles simplesmente recusavam-se a obedecer. Até que vislumbrou-os presos à cabeceira da cama, por um par de algemas – Que porra é essa? - resmungou, enquanto corria os olhos por seu corpo, vendo-se preso pelas pernas também. E completamente encapado por filme de PVC, próprio para embrulhar alimentos.
Marina, sentada em uma cadeira a sua frente, fitava-o, sem qualquer expressão em sua face - Dormiu bem? - e não havia ironia em sua voz tampouco, apesar da pergunta. Quisera apenas chamar a atenção de Fábio.
- Que você está fazendo, sua louca? Que merda é essa? - esbravejou em vão. Marina apenas levantou-se da cadeira e caminhou até a penteadeira do quarto. Ao lado desta, malas prontas para uma longa viagem. Sobre o móvel, uma urna de cerâmica, bojuda, com uns 30 centímetros de diâmetro na parte mais larga e uns 45 de altura. Apanhou o pote e veio até a borda da cama, com o mesmo caminhar lento e cadenciado.
- Sabe Fábio, imaginei esta nossa conversa por toda a noite, enquanto te esperava. Mas quando deitamos, lado a lado, eu sentindo o cheiro do álcool e daquela vagabunda em você... - balançou a cabeça lentamente - Você nem me tocou! Não há mais o porquê de mais uma conversa...
- Espera, Marina. O que é isso, esse pote? O que você pretende fazer? Pense nos momentos que tivemos, pense nos seus pais, como vão lidar com a vida se você fizer uma bobagem.
- Será problema deles, Fábio. Quanto ao pote... - desrosqueou a tampa até ouvir um pequeno estalo – Não sei se você percebeu, mas apenas o seu pênis está livre do filme. Exposto...
- Escuta, olha.... vamos conversar direito mulher – Fábio gaguejava, olhando em desespero suplicante para Marina. Não sabia detalhes de seu plano. Porém, tinha a certeza do pior porvir.
- Lava-pés. Ou formigas de fogo. Uma das ferroadas mais dolorosas da natureza. Carnívoras, aterrorizam pessoas e aminais da região amazônica. Carnívoras... Não tanto quanto nos filmes de Hollywood. Afinal, são formigas e não piranhas – e dito isso, tombou a urna numa abocanhada envolvente sobre o membro do marido – Umas cinco ou seis mil delas dentro deste pote. Vindas do laboratório da Universidade e criadas no porão, com todo o cuidado. Só aguardando...
Fábio urrou de desespero. E em seguida, urrou e urrou de dor a cada ferroada que sentia. Mas Marina nem lhe prestava atenção. Com as malas na mão, saía pela porta da frente de sua casa. Para uma viagem. Sem destino certo. Apenas para longe da mediocridade e hipocrisia cotidiana – Com um pintinho desses, em minutos o serviço estará feito - e ele poderia pensar nisso, enquanto o veneno das formigas fechasse sua garganta e o matasse por asfixia – O que é uma pena. Me daria mais prazer imaginá-lo sentir as entranhas devoradas também.
O carro partiu e em segundos a casa ficou diminuta no retrovisor. Os gritos de Fábio eram apenas lembranças de um passado de equívocos.

domingo, 9 de agosto de 2009

Desconhecido

Prezados,

Na condição de convidado, trago-lhes um conto curto e escrito fora dos meus padrões normais de escrita. Tentei, com esse conto, escrito já há algum tempo, exercitar frases mais curtas, a exemplo de outro postado em uma coluna do Norberto/Vic em ocasião diversa.

Não é exatamente sobre o outro lado da mente, mas creio adequar-se ao inesperado, sempre ontido naquilo que não conhecemos plenamente.

Abraços a todos.


DESCONHECIDO

Já era tarde, e as árvores que passavam pelas janelas do ônibus eram tão somente linhas um pouco mais negras em meio à escuridão da noite. Fechou o livro e apagou a lâmpada acima de sua poltrona. A cabeça agora pendia para o lado direito, e a mente voltava-se para a mata fechada que ela pouco conseguia ver naquela altura da noite.

Sempre que viajava para visitar seus pais, pensava, ao olhar para aquela vegetação já familiar, sobre o que poderia haver por detrás das folhas verdes – apenas sombras à noite – que beiravam o caminho da estrada.

Não era frio, mas precisou interromper seus pensamentos para pegar um casaco na mochila. Olhou para a poltrona ao lado. Ficara aliviada quando a senhora cheia de histórias e valores dormira. Somente assim pôde começar sua leitura sobre Dr. Jeckill e Dr. Hide, a dicotomia médico/monstro que a fazia pensar no que mais havia por trás das pessoas. Onde estaria o lado monstro da "quase-freira" que dormia no banco ao lado?

O ônibus estava lotado, e a época da Páscoa de fato movimentava as estradas. Não sabia se eram as pessoas que movimentavam as rodovias ou se era a própria Páscoa que agia materializada sobre o asfalto. Lembrou do garoto que empanturrava-se de chocolate no início da viagem. “Teria ele já vomitado?”. Não. Precisaria de mais alguns bombons, mas não tardaria.

Por um instante, quis saber onde estava o outro lado das pessoas que lhe cercavam. Olhou novamente para as árvores e esqueceu da idéia. Retomou o pensamento sobre o que havia após as árvores. O que haveria do ouro lado?

Com os pensamentos misturados à escuridão das árvores, estava demasiadamente concentrada para perceber que o garoto sujo de chocolate que corria ao banheiro não queria vomitar. Se visse aquele jovem rosto por uma fração de segundo, teria reconhecido o sinal do medo.

Foi quando pareceu ter visto uma sombra mais escura na mata que as luzes do ônibus se apagaram. Ouviu-se um único grito vindo das poltronas da frente. O medo a fez desejar que as luzes não voltassem.

Em princípio, sentiu-se aliviada por não passar pelo estranho evento sozinha. Havia mais algumas pessoas com quem compartilharia aquele momento. Em seguida, frustrou-se por não saber como os outros reagiam. E por alguns segundos ninguém ousou pronunciar uma palavra sequer.

Ainda não era conhecido o motivo da escuridão, mas voltou a concentrar-se no interior do ônibus quando uma senhora gorda ergueu-se da poltrona n. 4 e bateu secamente na cabine do motorista, exigindo explicações. Não houve resposta. Se a senhora houvesse permanecido na poltrona, talvez não tivesse o mesmo destino a que foi entregue motorista.

Bruscamente, alguém lhe atacou pelas costas, vindo de algum ponto desconhecido no ônibus, e o grito que se ouviu depois ficou claro até mesmo para quem jamais havia visto alguém morrer – e ver, naquela altura da noite, não era privilégio de muitos.

O pânico exalava de cada corpo ainda vivo, e os gritos de pavor seguiram o grito de morte. Um a um, os passageiros foram ecoando o que começou nas poltronas da frente. Não sentiu medo de morrer. Sentiu medo de ser a última a morrer. Não se importava com seu destino, desde que fosse igual ao dos demais.

De fato, ninguém foi poupado. As lágrimas de sangue não demoraram a escorrer de seu pescoço, e a imagem que a garota pôde ver em seus últimos reflexos foi a de um corpo enorme caminhando – como quem volta para casa – em direção à mata fechada.
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Leonardo Fripp/Croatan

sábado, 8 de agosto de 2009

Sonhos

Salve!

Surfando nas ondas da grande, revolta e farta rede mundial de computadores, topei com este conto e acredito que ele deva ser publicado aqui. O crédito ao autor esta no final do conto. Não o conheço, mas é interessante.

Desta vez, nada de horror, aborda o lado negro da mente, afinal o que é o lado negro da mente senão aquilo que a grande maioria não conhece e os poucos que sabe, não podem escrever sobre? Sendo assim, tudo que investiga a mente humana esta na calota negra, aquela grande e imensa porção do cérebro que pouco é explorada, e onde o sol nunca se faz ver...

Bons sonhos, meus queridos...

Salut!

N.E.I.'.

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Sonhos


Deitada de costas, ela estava pensando:

- (Ele tinha razão quando me disse que o divã do psicólogo nunca é muito cômodo.)

- Estava dizendo que teve um sonho.

- (Mas, que coisa fez tanta graça dos lacanianos paulistanos?)

- Estava pensando em alguma coisa?

- Sim ... não ... Sim, eu teve um sonho a noite passada.

- Quer me contar?

- Quero. Eu estava deitada numa cama. A habitação estava a meia luz. De repente, entra um homem abrindo violentamente a porta. Se aproxima à cama, olha fixo para mim, tira uma arma de sua cintura e atira em mim. Eu morro.

- Esse homem lhe é conhecido? Ou parecido com alguém?

- Não dá para ver a cara dele.

- Como assim?

- Eu estou deitada de costas à porta e todo acontece rapidamente. Eu vejo a cena de fora, como num filme. A cama está no lado esquerdo do quarto. Tem uma janela no lado direito por onde entra a luz. Quase no centro fica a porta pela qual entra o homem.

- Não dá tempo de ficar apavorada, não é?

- Não ... heim ... não, não dá. (Pavor não. O que eu estava sentindo?).

- E você disse que o homem não lhe lembra a ninguém em particular ...

- Era um homem grandão, de movimentos bruscos, como Stallone.

- Como quem?

- Como Silvester Stallone, o ator de cinema.

- E porque ele ia querer matá-la?

- Ele queria realmente me matar? Sim, claro. Por que ele queria me matar? ... Não sei, estou confusa.

- Ele atira em você, ele mata você, não é?

- Sim, sim. Ele atira três tiros e me mata.

- E ai você acordou?

- Acordei.

- E depois de acordar sentiu medo?

- Não, eu estava confusa.

- Não sentiu medo?

- Sim, claro, sabendo que ia morrer, eu estava como com medo.

- Claro, depois que morreu já não dava para sentir mais nada.

Paciente e psicólogo riram. Ele lembrou a hora e a sessão terminou na paz dos honorários.


Pouco antes da sessão de psicanálise ela conheceu um rapaz numa livraria. Os dois estavam procurando novidades em literatura, o que chamou à atenção de ambos. Ai começou o diálogo, foram a tomar um café e continuaram a conversa. Primeiro falaram de romances modernos, mas quando ela disse que de ai a pouco ia ter sua terapia, o diálogo mudou de rumo: passou para Freud, a neurose moderna, a depressão e coisas similares. Quando ela disse que o seu terapeuta era um lacaniano paulistano, ele tentou em vão esconder seu sorriso. Trocaram números de telefone para continuar a conversa. Dois dias depois marcaram um novo encontro. O tema, desde o início, foi psicologia.

- Sim, eu já li bastante Freud, mas não tenho sacos para ser psicólogo. Agüentar a conversa de pessoas que o único problema real que tem é que não sabem o que fazer com o tempo. Claro que tem pacientes interessantes, como os de Freud, mas também ele deve ter suportado imbecis que nem deram para ser citados. Por outra parte, das pessoas que acho interessantes, não quero ser o psicólogo. Quero ser o amigo, por exemplo. Também não quero ser o psicólogo de meus amigos. Por isso não gosto de interpretar os sonhos por interpretar.

- Você sabe interpretar sonhos? Eu teve um sonho que contei para meu psicólogo, mas ele ainda não me disse nada. Como se faz para interpretar um sonho?

- Com talento. Interpretar um sonho requer de uma habilidade especial. Tem envolvida uma questão de sensibilidade. O inconsciente é como o Apolo de Heráclito: nada diz, nem nada cala, só dá sinais. A chave para decifrar a maioria dos sonhos é algum sentimento. Algum sentimento que não condisse com o que está acontecendo no sonho. Por isso é que um psicólogo precisa de uma sensibilidade especial.

- Mas Freud tem uma teoria da interpretação dos sonhos, onde o fundamental é que o sonho é a expressão de algum desejo oculto, que a pessoa não quer reconhecer.

- Sim, mas isso não significa nada. Um sonho é multiface e expressa, misturados, muitos desejos de diferentes tipos. Sempre é fácil achar algum desejo expresso em qualquer sonho. Mas isso não vale nada. É como o Édipo. Freud usa o Édipo como chave mestre e os psicólogos com cavalo na batalha: o Édipo corre com o prejuízo e eles vão encima. Vasculhando sempre se chega ao Édipo, mas o problema não é chegar, mas como se chega. O Édipo e o happy end da terapia freudiana, mas muitos psicólogos reagem como as pessoas ingênuas ante um filme hollywoodiano: têm tanta ansiedade pelo fim, que acham que o fim é todo. O final sozinho não é um final, precisa do desenvolvimento, da ansiedade da qual é o final. Se uma mulher dizer: ``me corria um homem com uma faca'' e o psicólogo interpreta logo: ``o homem é o seu pai e a faca o pênis'', dificilmente esteja prestando algum serviço para seu paciente. Tem que ler Freud não olhando para a teoria que ele esta expondo, mas vendo como ele interpreta. Ver como Freud descreve os sentimentos: ``um pavor desmedido'', ``um desejo contraditório'', ``uma alegria apática''. Muitos psicólogos não vão ao detalhe do sentimento porque eles próprios não sentem com detalhe. O psicólogo não pode ser menos sensível que o paciente.

- Eu não tinha pensado nisso, pode ser. (Mas ele não está falando do meu psicólogo, pois nem conhece ele.) Que pena que você não quer interpretar sonhos de amigos, pois eu gostaria que interprete o meu. Mas fique tranqüilo, vou respeitar sua posição.

- Outra maneira de ver a coisa é que o importante num sonho quase sempre é um detalhe. Sem sensibilidade esse detalhe passa desapercebido. Aliás, se podermos falar de intenção do sonho, essa intenção é que o detalhe passe desapercebido. Se o paciente sabe psicanálise tem um outro motivo: falar para a pessoa certa, não revelar segredos para aqueles que só vão criar confusão. Nem todo o que um paciente oculta do psicólogo é por causa da malvada repressão.


Terminou o encontro e ela ficou pensando. Um detalhe. O detalhe que chamava a atenção no seu sonho era a iluminação da habitação. A luz vinha da janela da direita e dava um clima dramático à situação. Mas, que significado pode ter a iluminação? Seria que ela estava ocultando o essencial a seu psicólogo não pela ``malvada repressão'', mas para que aquele não entrasse no seu inconsciente como um elefante numa loja de louças? Mas o seu psicólogo é um bom psicólogo, um lacaniano paulistano. Não é que ele não seja sensível, é só sua postura de psicólogo. Continuou pensando:

- (Também eu não sei ao certo se o papel da sensibilidade é tão importante num psicólogo. O homem seu pai, e a faca o pênis dele. Não, meu psicólogo não vai ser tão burro para dizer: ``Olha, o homem que entra pela porta é o seu pai, e o revolver o pênis dele''. Claro que isso não explica nada. Bom, explica porque eu acordei tranqüila e contenta. Detalhes nos sentimentos? Como se tiver realizado um antigo desejo. Vem? O desejo está presente. Sim, claro, sempre esta presente.)


Por fim chegou o dia da próxima sessão. Ela esperava ansiosa pela interpretação do seu sonho. O primeiro que ela fez foi perguntar. Ele respondeu:

- Um sonho deve ser interpretado em contexto. Não é como um texto sagrado que tem normas absolutas para sua interpretação.

- Mas Freud falou que sonho expressa desejo.

- Que desejo você vê se expressar no seu sonho?

- Não sei, para mim está confuso.

- Mas no sonho você morre. Você quer morrer?

- Não, não, eu não quero morrer. Eu tenho esperança de que alguma coisa de maravilhosa vai acontecer logo na minha vida.

- Fala como se tivesse conhecido alguém.

- Sim, conheci um rapaz bem interessante, mas não é isso, não. E um sentimento de realização pessoal. Mas, o que me importa é a interpretação do sonho.

- Você fala do sonho e fala de desejo.

- Freud fala de desejo.

- Sim, mas você trouxe o desejo até aqui.

- Sim, eu falei do desejo.

- Mas você fala que não quer morrer e o seu sonho mostra você morrendo. Portanto, a morte do sonho representa uma outra coisa.

- Representar?

- Não. Representa. A sua morte no sonho representa alguma outra coisa.

- Não, não, eu estou representando minha morte. Não, o sonho representa minha morte. Estou confundida. Como diz?

- Fique tranqüila, sua confusão mostra que estamos no caminho certo. Eu disse que sua morte no sonho representa alguma outra coisa.

- Uma relação sexual. Eros e Thánatos. O meu desejo oculto de ter uma relação sexual com meu pai, toma a forma de ele me matando. (Página 475, tombo 4, Obras Completas de Freud. E para isso lhe pago?)

- E isso explica também o medo.

- (O medo de que o elefante entre na loja de louças.) Mas o meu pai não se parece a Stallone.

- É a imagem infantil do pai grande e forte.

- Ah ... (Será?)

A sessão continuou com outras páginas de Freud e terminou na paz dos honorários. E como a vida é muitas vezes uma sucessão de encontros e desencontros, dias depois da sessão de psicanálise aconteceu um outro encontro.


- O seu psicólogo deu uma interpretação surpreendente de seu sonho. Foi?

- Não seja irônico, por favor, que para mim é coisa séria.

- Perdão. Não quis magoá-la.

- Para mim a interpretação desse sonho é fundamental.

- Como a interpretação? Que raro! Você fala de interpretação de uma maneira esquizofrênica. Por um lado com uma ênfase e um sentimento de paixão difíceis de compreender. Por outro lado como se a interpretação que está procurando fosse um jogo matemático, uma coisa lógica e fria. Esqueça da interpretação e pense no seu sonho de uma outra maneira. Como os antigos, por exemplo.

- Como se meu sonho está mostrando meu futuro. Você fala sério?

- Falo. Se lembra do alpinista de Freud que sonhava que caia da montanha? Ele sonhou seu futuro. As vezes, o inconsciente sabe mais do futuro que a consciência.

- (Mas, se eu desejar minha própria morte, por que acordei tão feliz?) Então agora não entendo.

- O mais importante de um sonho nunca é o primeiro que vê a pessoa que o teve. Pode até estar explícito, mas não vai ser o primeiro que vê. Seu psicólogo não falou nisso?

- Parece que você não gosta do meu psicólogo, mas ele tem boa fama.

- Mas a fama é a opinião dos outros. Você que acha?

- Eu acho ele bom. Só que parece não ter cultura geral. Não conhecia a Stallone.

- Mas você gosta dos filmes de Stallone?

- Nem tanto. Mas também não sabia que era Fellini.

- Bom, ai a coisa complica.

- É mesmo?

- Sim, porque existe uma imagem coletiva, um sentimento do que é Fellini. Se seu psicólogo não sabe quem é Fellini o paciente vai quer dar uma idéia ``objetiva'' de Fellini, ou seja, essa imagem coletiva, em vez de expressar o seu sentimento. Então o psicólogo, que não conhece o sentimento geral, deve diferenciar o sentimento particular do paciente. As vezes, o que já é difícil torna-se impossível. Eu já teve esse problema na minha própria terapia. Uma vez comecei a falar de Safo e minha psicóloga não sabia que foi Safo. Perdeu uma porta aberta, mas enganosa, para o tema da homossexualidade.

Ela ironizou com um leve sorriso:

- Mas, você gosta da poesia lésbica.

- Tanto como para fazer o esforço de aprender eólio.

- Os ventos trazem lembranças.

- Quando falam do ventos da antigüidade, eu me lembro do Bóreas.

- Ah, se eu for sua psicóloga, diria que no seu aprendizado do eólio está presente o seu desejo de raptar sua mãe quando ela era donzela.

- Mas todos os ventos frios do Norte raptam donzelas.

Os dois riram das ironias quase ininteligíveis. Ela continuou:

- Passando da ironia para a fofoca. Você que leu Safo em eólio, acha que ela era homossexual?

- Eu acho que não. Acho que os fofoqueiros da antigüidade injustiçaram ela com uma difamação, tal vez por inveja.

- E isso sim que tem que ver com a sua mãe.

- Tem, com certeza, tem.

- Então, você percebeu? Começamos falando de romances modernos e psicanálise e agora estamos chegando aos temas verdadeiramente importantes: os clássicos, a poesia ...

- E o cinema.

O rosto de ela mudou. Ele falou:

- Por que você ficou tão séria? Aconteceu alguma coisa?

- Não, não. Eu gosto tanto do teatro e do cinema. Participo de um grupo de teatro experimental, mas por vergonha ou por medo da incompreensão não falo para quase ninguém. Mas é como se você tivesse adivinhado.

- Não adivinhei, não. O sentimento com que você falou do cinema. Parecia machucada pelo fato de seu psicólogo não saber que é Fellini. Vai participar de alguma peça?

- Não, mas eu fiz um teste. Não para uma peça, para um filme.

- Um filme?

- Sim. Glaúber Rocha vai rodar uma adaptação da peça Melissa, de Augusto Boal.

- Eu estou sabendo. Já li na Folha. Eu já assisti Melissa no Rio, com direção do próprio Boal.

- Eu nunca assisti a peça, mas li o livro uma dúzia de vezes.

- Um teste para que papel?

Ela ficou com vergonha, e logo falou:

- O papel de Melissa.

- Melissa? Tomara que consiga esse papel. Parece uma coisa muito importante para você. E eu tenho a sensação de que seria uma Melissa antológica. Mas, que personagem complicada! É como nas obras de Shakespeare, a gente sabe o final desde o princípio, mas, mesmo assim, o final surpreende. Quando vai ficar sabendo se foi a escolhida?

- Amanhã.

Ficaram se olhando um para outro em silêncio.


Momentos antes de sua sessão de psicanálise. O telefone tocou. Deram a notícia: ela era a escolhida para Melissa. Ela dava um passo para um lado, um outro para outro lado, queria pular, queria dançar, queria gritar, queria chorar. Aos poucos foi se acalmando. Lembrou-se da sua terapia. Ai veio um sentimento de raiva e pensou:

- (Mas que burro, que burro, que burro que é o meu psicólogo. Eu tenho que parar de jogar fora tempo e dinheiro e dar bola somente às pressões das pessoas que admiro.)

Ela entrou no consultório do psicólogo, olhou aos olhos dele, e lhe diz:

- Você é um burro, e eu não vou vir mais.

E saiu batendo a porta. Chegou na sua casa e ligou para marcar um encontro com ele. Falou da novidade.


- Parabéns. Você conseguiu. Eu sinto que vai fazer uma Melissa memorável.

- Larguei de meu psicólogo. Quando uma pessoa tem algum desejo muito intenso, parece que tem a necessidade de ocultá-lo para que se realizar.

- Ou pelo menos não contar para os psicólogos burros.

- Você também acha? Eu gosto tanto de você ...


Começou a filmagem. Glaúber surpreendeu todo mundo quando disse que o primeiro a filmar ia ser o final, a última cena. Ascenderam os refletores e Glaúber deu a ordem de rodar.

Ficou na cama de costas à porta, como está na peça. O grandão ficou sabendo da traição de Melissa. Entrou violentamente no quarto e matou Melissa.

Ela não podia acreditar tanta alegria. Seu sonho tornava-se realidade.

(c) 1998 Carlos González

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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Vá e não peques mais

- Me perdoe Padre, porque eu pequei...

Gustavo inala sofregamente todo o ar cabível em seus pulmões e senta-se de súbito em sua cama. As imagens a sua frente eram pouco nítidas, em parte pela escuridão de seu pequeno quarto na pensão de Dona Olívia, em parte pela confusão provocada por um sonho recorrente, assombrado por vozes do passado. Inclina seu corpo e tateia o soalho do dormitório, em busca de seu maço de cigarro e isqueiro. Pagava R$ 250,00 a mais por mês, para Dona Olívia, só para ter o privilégio de não dividir o quarto e poder socorrer-se em algumas tragadas nos momentos críticos, sem ser censurado por um eventual companheiro.

Ajeita os travesseiros na cabeceira da cama, criando um encosto estofado e confortável para suas costas. Leva o cigarro a boca e dá um longa tragada. Seus olhos se habituam à escuridão da madrugada e os limites de seu pequeno quarto podem ser vislumbrados, ainda que sutilmente. Porém, não era a visão do quarto que ansiava, mas as imagens que provocariam mais uma noite de insônia. Reclina sua cabeça para trás e, ao mesmo tempo em que expele uma bolha expansível de fumaça, fecha os olhos, mergulhando na obscuridade de suas memórias...

Não podia deixar de supor que sua vida teria sido plena, se não fosse por uma tarde, num confessionário, há quase seis anos.

Gustavo tinha vinte e oito anos, na época. Era o Padre Gustavo da modesta Paróquia de Nossa Senhora de Guadalupe, Protetora dos Nascituros. Uma igreja simples, sem qualquer ostentação. A nave principal, talvez abrigasse umas quarenta pessoas. Mas isso ocorria somente em dias de casamento. No restante, os poucos fiéis de sempre, pessoas de mais idade e tradicionalistas.

Há muito, o povo do interior de São Paulo perdera sua convicção nos ritos da fé. Criam em Deus, Jesus e eram quase todos devotos de Nossa Senhora. Gustavo tinha a mais absoluta certeza disso. Porém, não viam mais nas Igrejas o caminho para chegar a Eles, aos seus Salvadores e Protetores – A Igreja precisa se encontrar com o povo novamente. Ter o unguento para suas aflições e temores – lembrava-lhe o velho Padre Anselmo, titular de fato da paróquia, porém já bastante alquebrado pela idade e incapaz de celebrar sequer uma das duas missas diárias.

Foram três bons anos, aprendendo com o Velho, rezando as missas diárias e ouvindo seu rebanho no discreto confessionário, ao fundo da igreja. Até aquele sábado.

Ouviu Dona Anita, uma senhora miúda, quase esquelética, estragada mais pela desnutrição e maus tratos da vida do que propriamente por seus 70 anos de vida. As mesmas mazelas e inocentes pecados de sempre, da briga com a neta, da discussão com o genro, a quem jurava respeitar – mas que me tira do sério - como ouviu seu Nestor, o prefeito da cidade. E do mais humilde ao mais poderoso, ninguém lhe confessava algum pecado que merecesse uma preocupação maior com a saúde moral da comunidade. As vezes, instigava-os até a um trabalho social, junto as populações menos favorecidas como forma de alívio para o tormento e punição pelo pecado confessado. Uma novena, algumas ave marias e pai nossos, mais habitualmente. Se os moradores da cidade tinham pecados maiores, não era ao seus ouvidos que os confessavam – e pode ter certeza que eles tem, meu filho. Pecados inomináveis! - brincava o Padre Anselmo. Mas Gustavo gostava de ouví-los, por vezes ingênuos, noutras tentando “enganar um pouquinho à Deus e ao Padre”, mas fundamentalmente, comparecendo e mostrando a importância que poderia haver em um par de ouvidos pacientes.

Foi então que Padre Gustavo ouviu um abrir diferente da portinhola de seu confessionário. Um abrir cuidadoso, quase sorrateiro, diferenciado de todos os outros que estava habituado a ouvir. Deveria ficar feliz. A possibilidade de um novo fiel, de alguém mais em comunhão com a Igreja e com Deus. Porém, no seu peito sentiu um incômodo, um aperto. Suspirou, espantando seus temores e procurou se concentrar em suas obrigações, declamando o início da confissão, ao ouvir o assento do banquinho rangir.

- Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

- Amém – respondeu uma voz grave e rouca do outro lado da divisória em treliça - Padre, me perdoe, porque eu pequei.

- Que o Senhor esteja em seu coração e palavras para que, arrependido, confesse seus pecados.

- Eu nunca me confessei antes, Padre. Vivia e acreditava que Deus me perdoaria por meus pecados, sem que alguém precisasse interceder, quando chegasse a hora. Porém, percebi estar errado – a rouquidão da voz solenemente fez uma pausa. Talvez buscasse perceber a repercussão de suas palavras, talvez quisesse apenas tomar um fôlego e organizar suas idéias para prosseguir com seu relato. Porém, ao Padre Gustavo não restava mais qualquer dúvida: este era um homem sinistro e que estava por confessar um pecado abominável.

- O que importa para Nosso Senhor Jesus Cristo é que você se arrependa, confessando seus pecados. Ele pode a tudo perdoar, se for sincero o seu arrependimento.

- Hoje eu sou um homem feito, Padre. Quarenta e cinco anos, um cirurgião brilhante. Ganho muito dinheiro em São Paulo. Sou admirado e respeitado por todos meus amigos, clientes e colegas de profissão. E praticamente, atravessei o Estado para chegar nesta Igreja, de Nossa Senhora de Guadalupe, para confessar-lhe que minha história nem sempre foi respeitável assim... - e a Voz fez uma nova pausa. Padre Gustavo não resistiu a tentação e focou seu olhar sobre as frestas da treliça. A Voz tinha a tez bem clara, porém com bochechas rosadas, macilentas, cabelos levemente grisalhos. Um riso discreto permanentemente desenhado em seus lábios. O rosto que personificava a bondade, a retidão. Estatura mediana, talvez um metro e setenta, pouco mais pouco menos. Não era gordo nem magro. Vestia-se elegantemente, num terno cinza claro, gravata azul quase marinho, camisa reluzentemente branca e bem passada. E numa avaliação desta superfície diria-se – Ali está um bom homem – Porém, Padre Gustavo sentia em sua alma que não. E temia por cada nova palavra a ser dita.

- Minha mãe era uma puta, Padre. Não dessas que ganham a vida fazendo sexo. Mas por vocação mesmo. Não sei quem é meu pai. Possivelmente um dos muitos bêbados e drogados que ela levou para casa, nos finais de noite. Eu me lembro da primeira vez que a ouvi – a Voz sorriu levemente – morávamos num pequeno apartamento no centro da cidade. Dois quartos fétidos, sempre imundos, grudados parede a parede. “mete mais, mete mais seu puto! Me come!”. Eu tinha cinco anos, Padre. E passei a noite de olhos abertos, ouvido colado na parede do quarto, temendo por minha mãe. Pelas dores que estava sentindo... - E a Voz fez-se gargalhada. Alta, grave, descontrolada.

- Meu filho...

- Padre, é importante que eu conte, que o senhor saiba e entenda. É importante.

- Ele tudo sabe, filho. Você não precisa se defender ou se torturar. Apenas se arrepender...

- E eu me arrependo, Padre. Muito! Não desses pecadinhos. Não por ter colado o ouvido na parede. E nem por ter me escondido dentro do guarda-roupas dela, pouco mais de um ano após.

- Você...

- Eu precisava! Eu tinha que ver as imagens que me traziam os sons, os pesadelos... Era preciso saber. Só assim eu poderia ter meu sono e paz de volta, eu pensava...

Padre Gustavo ouviu um prolongado suspiro, carregado de dor e sofrimento. Pensou em abordá-lo novamente, dissuadi-lo de pormenorizar sua história. Mas sabia não ter forças para deter esse homem. Teria que ouví-lo até o fim.

- Então aconteceu numa sexta-feira de madrugada. E eu estava a tanto tempo lá dentro do armário, prensado por roupas, cabides e cobertores, que dormi. Acenderam a luz do quarto, passos trôpegos, cambaleantes. Risos embriagados. Acordei assim. Cuidadoso, pois me lembrava onde estava. Temia pela minha sorte se me descobrissem. Minha mãe tinha a mão pesada. E paciência nenhuma. Não lhe custaria nada me espancar mais uma vez... O guarda-roupas era antigo. Daqueles em madeira mesmo, entalhes e fechadura. Nada de aglomerados, daquela quase serragem que tentam nos vender hoje... Foi pelo buraquinho da fechadura que pude vê-los. Loucos, como dois loucos... - a Voz serve-se de mais uma pausa. Gustavo o vê baixar a cabeça e cobrir os olhos com uma das mãos. Mas não estava chorando. Parecia apenas esforçar-se para ter mais nitidez em suas lembranças – Eles se beijavam muito, exploravam seus corpos com violência, forçando frestas em suas roupas, até se livrarem completamente delas. E eu fiquei olhando. Minha mãe naquela cama, gemendo, urrando. Sua barriga lustrosa, gigantesca, de uma gestante de 7 meses. E o homem sobre ela, estocando forte, violento. Via a musculatura dele brilhar com o suor. Um peão de obra talvez, pela força física talhada no trabalho. Não havia sinais de cuidado ali. De academias ou malhação coordenada para a produção de músculos perfeitos. A força dele vinha da rudeza de sua vida – A Voz fez novamente uma pausa. Levantou a cabeça e colou-se à treliça divisória. Padre Gustavo podia sentir seu hálito – O senhor já viu uma expulsão de feto? Um aborto espontâneo?

Gustavo sentiu seu corpo gelar, ao mesmo tempo em que sua cabeça parecia dar voltas no ar. Aquele homem não era humano. Ele era mau, a personificação do mal. E Gustavo precisava escapar. Porém era tarde e sabia-se refém da Voz. Jogou a cabeça para trás, fechando os olhos. E as imagens vieram, claras, nítidas como em um cinema. Podia ver pelos olhos da Voz.

O homem, pele negra, brilhando de suor, penetrando a grávida com tamanha violência que se alegaria um estupro. Os gemidos enlouquecidos até o grito de dor – que porra é essa? - gritou o homem ao ver seu membro encharcado de sangue. Cambaleante, levantou-se da cama. A grávida se contorcendo na cama. O sangue derramando-se sobre o lençol, em golfadas, e ela implorando – me ajude, me ajude – Rapidamente ele se veste e sai em disparada do quarto, ainda calçando o tênis sem meia mesmo. Não buscaria ajuda alguma. Não se envolveria com policia – eu só queria dar uma trepada.

O choro apavorado de Débora – sim, esse era seu nome – Padre Gustavo podia senti-lo. Talvez a Voz o pronunciara, talvez sua imaginação o buscara. E então o garotinho, abrindo a porta do guarda-roupas e pisando no assoalho de madeira sem lustro algum – filho... Otávio. Corre, vai até o apartamento da Marta e chama uma ambulância. Pelo amor de Deus filho – e Débora se contorcia. Porém, Otávio permanecia ali. Olhando o sangue, olhando o sexo de sua mãe abrir-se e iniciar a expulsão de um pequeno bebê. A mulher gritou forte, seguidas vezes, dobrando-se ao meio. Otávio deu dois passos a frente, ficando bem próximo a mãe. Ela ainda olhou para ele, com os olhos suplicantes – chama ajuda meu filho. Vai... - E foram as últimas palavras que Débora disse, antes de ser atingida pelo ferro de passar roupas, que Otávio trouxera de dentro de seu esconderijo. Não houve tempo para protesto ou surpresa. A mulher simplesmente desabou, rosto desfigurado, crânio amassado.

Otávio se sentou na cama, separou as pernas da mãe. A criança ainda não havia sido expulsa completamente. Então, com suas mão aos redor da cabeça, puxou-a até que saísse por completo. Parecia sem vida, morta como a mãe. Tocou em sua pernas, balançando-as. Empurrou sua cabeça para os lados. E então, a coisa mais estranha do mundo aconteceu: um choro, vindo daquela menina suja de sangue. Otávio deu um pulo, assustado. Porém, se conteve e ficou olhando a criança mexer convulsivamente as pernas e os braços. Foram uns dois minutos. Não mais que isso. E o ferro de passar silenciou a criança.

Padre Gustavo arfava. Sentia suas roupas cerimoniais grudadas ao seu corpo. Transpirava descontroladamente e percebia-se possuído pela história que ouvia. Era um estranho dentro de seu próprio corpo. Não tinha mais o domínio de si próprio. Submetido a uma história hedionda, sem poder gritar por socorro, sem poder evitar as imagens que vinham-lhe à mente.

- E eu fugi de lá, Padre. Na verdade, calmamente saí do apartamento e busquei refúgio nas ruas. Vivi assim por algum tempo. Até que Dona Lígia resolveu me tirar da rua. Me levou para sua casa, legalmente procurou se informar sobre quem eu era. Mas nada havia. Ninguém para reclamar minha posse. Apenas minhas histórias inventadas sobre um abandono. Frequentei boas escolas, me dediquei muito, porque tinha um objetivo definido na vida: ver um nascimento novamente. E assim, me tornei ginecologista e obstetra. Nunca tive filhos meus. Porém, trouxe muitos ao mundo. Tive poucas mulheres. Todas clientes grávidas em estado avançado, adulteras ou mães solteiras. E, Padre, como eu trepei! Forte, vigoroso. Mas tudo isso era pouco. Não me tirava a dor, a angústia. Perto do que acontecera antes... era muito pouco. Então... - a Voz fez uma pausa profunda, mediante um suspiro que prenunciava o fim de sua história - Eu vou deixar um jornal sobre o banquinho. Esta foi minha 13a. vítima. A décima terceira mulher grávida em quem provoquei um aborto e matei: mãe e criança – Otávio se afasta da treliça e recosta-se sobre a parede - Me perdoe, Padre, porque eu pequei. E me arrependo com sinceridade e verdade em meu coração. Me arrependo profundamente, com a alma doída. Não suporto mais essa vida de mortes e sangue. Mas não tenho forças para resistir a essa necessidade, a essa angústia. Só o seu perdão poderá me dar a paz e a redenção para me livrar dessa maldição. Por piedade, Padre: dê-me seu perdão. Eu lhe suplico.

Padre Gustavo abana a cabeça em, sucessivos “nãos” - Como poderia? Como esse homem ousava pensar que tudo era tão simples assim? Era um louco, insano, que invadira sua mente com esta repugnante história, sua crueldade – pensava Gustavo, torturando-se profundamente na esperança de retomar sua lucidez – Eu não posso! Nem Deus poderia... o que você fez, doutor Otávio... eu não posso!

- Então não há esperança para mim. E nem para as gestantes que eu possa encontrar... Padre, faça-me um último favor. Reze à Nossa Senhora de Guadalupe. A prece em favor dos nascituros. E peça a ela que interceda por mim. Que obtenha o perdão dos que sacrifiquei.

E numa fração de segundos, um clarão, um estrondo. O corpo de Otávio tomba e arrebenta a portinhola do confessionário. Os poucos fiéis na igreja ainda chegam a tempo de verem o Padre Gustavo ajoelhar-se frente ao cadáver, fazer o sinal da cruz em sua testa ensanguentada e dizer-lhe – Então vá. E não peques mais.

Na mão de Otávio, ainda fumegava o cano do revólver calibre 38. Nos olhos de Padre Gustavo, incontidas lágrimas lhe diziam que sua profissão de fé o tinha abandonado, ao estampido daquele disparo.

domingo, 2 de agosto de 2009

Além da justiça de Deus

ALÉM DA JUSTIÇA DE DEUS
Domenium


O som abafado das pás escavando com extrema frenesi ressoava em seus ouvidos, sendo a salvação para os lamurios fúnebres que ouvirá durante muito tempo debaixo daqueles escombros. A esperança tomou formas quando viu a luz adentrar pela senda que pouco a pouco aumentava. Januário estava coberto por terra e sangue. Retido por um pavor inexplicável, teve apenas força para dizer: “O sangue de Javé tem poder! Glória senhor!”. Ao sair do buraco seus olhos vislumbraram a voracidade da destruição e uma pequena multidão de curiosos que cultuavam a busca por novos sobreviventes; o jornal nas mãos de uma senhora, dizia: “Aquecimento Global: furacões devastam Estado”. Januário, pastor devoto, faz o sinal da cruz ao ver aterrorizante manchete.

- Venha senhor, vamos para ambulância. - consola, Moacir, o bombeiro, observando o estado débil do debilitado homem. Notando a vontade inviolável de suas mãos ao segurar um curioso rolo de papel manchado com sangue.

A razão operou de forma estranha, breve e soturna na mente de Moacir. Não foram necessários 10 segundos após o seu imediato dizer: “Senhor, estão todos mortos aqui!” e a leitura do estranho rolo: “Lista dos escolhidos por Deus”. Onze nomes riscados a sangue! Como dito, não foram necessários 10 segundos; um disparo ecoou em meio a destruição, um corpo tombou no chão.

- Realmente não há nenhum sobrevivente aí. Procuremos em outro lugar! - Concluiu Moacir com a sua fumegante justiça automática em punho.


Fim



Imemoravel Templo das palavras
http://domenium.blogspot.com/

sábado, 1 de agosto de 2009

O lado escuro da mente

Salve, salve povo congelado! :D

Como eu sempre gosto de coisas novas, variantes, hoje vou postar um conto relacionado com RPG (Role Playing Game), que é outra paixão minha, ainda que "adormecida" pela falta de tempo para jogar. Quem quiser maiores detalhes sobre RPG, o próprio site onde peguei este conto tem aos montes, além de outras fontes. Jogando "RPG" no Google tem milhares de sites que explicam o jogo, mas mesmo quem nunca jogou e nem sabe o que é isso, e acha que RPG significa apenas Reeducação de Postura Global (terapia), o conto é interessante e independente.

Este aqui eu retirei do site www.rpgonline.com.br , espero que gostem. O nome do autor esta abaixo, no texto (na verdade, o pseudônimo dele).

Não reparem na quantidade de espaços que eu coloco no texto abaixo, nem com os ------ que eu coloco, esta tralha aqui, que é do Google, mesmo dono do Orkut, tem o mesmo problema do Orkut: você enche de espaços para centralizar algo e posta, quando vai ver, ele come os espaços e o que era para ser centralizado, fica no começo da linha. O mesmo se dá entre os parágrafos: eu deixo um espaço, ele não reconhece e junta o texto, dificultando a leitura, então dou sempre 2 espaços, se ele comer um, sobrará um. Não sei se isso acontece só comigo ou se é bug do sistema, sei que acontece.

Uma boa leitura, neste sábado frio e chuvoso. Os meteorologistas falaram que ia sair o sol hoje, mas vai ver que ele estava sem o seu capote (e touca - tem touca para o tamanho do sol?) e preferiu não sair, ficou nas profundezas do céu, escondido em sua toca celestial...

Saudações!

N.E.I.'.

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-------------------> O lado escuro da mente

Às vezes nem os olhos abertos ajudam a compreender uma situação!

Autor: [D&D] Frost Hyral
Publicado em 3 de Março de 2008 às 16h27



Às vezes nem os olhos abertos ajudam a compreender uma determinada situação. Em certos momentos eles servem apenas para confundir ainda mais, contradizendo com o que sua cabeça deseja acreditar, vendo coisas que não deviam estar ali. Era isso que acontecia com Roy naquela noite, mas não apenas a visão contribuía para confundi-lo, os ferimentos e a fraqueza também o deixaram assustado. Como ele foi parar ali? E talvez algo mais importante, que diabos de lugar era aquele?


Não conhecia aquela estrada, não conhecia aquelas árvores mortas, aquela poeira, aquelas rochas, nem a vegetação rasteira, mas isso não era o que mais o perturbava, mas sim o que iluminava a existência dessas coisas: o fogo que queimava restos de corpos e carroças que se espalhavam por toda estrada e além dela. Os rostos estavam desfigurados demais para serem reconhecidos, as carroças destruídas demais, não havia nenhum sinal de cavalos, não havia nada que ele conhecia, até que seus olhos foram ao encontro de Clara, ela estava a poucos metros, jazia inerte próximo a uma rocha. Roy tentou se aproximar, foi então que notou que estava caído, seu casaco estava sujo com alguma coisa e suas pernas eram como um fardo que ele não conseguia carregar.


Arrastar-se com a ajuda apenas de seus braços era como escalar alguma coisa, porém ainda mais difícil devido a seus ferimentos, era como se suas mãos pegassem fogo sempre que forçavam o chão. Foi uma luta difícil, mas no final ele chegou até Clara. Não podia abandoná-la ali, ela havia salvado suas vidas inúmeras vezes, deixá-la seria como deixar uma parte de si mesmo. E após a dúvida sobre os pedaços que havia visto, se alguns deles não eram seus, não podia arriscar perder mais nada. Finalmente conseguiu colocar suas mãos em Clara e a analisou totalmente, algo faltava. Ela estava descarregada.


Um ruído próximo tirou sua atenção da arma, aparentemente, alguém também se encontrava confuso. Era um homem que já aparentava mais de meio século, sua barba e o que restava de seu cabelo já se encontravam em um meio termo entre o cinza e o branco. Estava tão sujo quanto o outro, embora ferido em uma hemorragia terrível. Roy percebeu nesse momento de quem era uma das pernas que vira ao acordar.


— Ah! Droga, bastardos, olhe o que fizeram! Eu sabia que eles viriam, mas de onde? Foi tudo tão rápido!


O velho parecia dizer mais para si mesmo do que para qualquer outro, mas ficou apreensivo quando escutou o galopar de cavalos em algum lugar próximo. Roy só conseguiu distinguir o som dos estalos do fogo quando o outro silenciou. Chegaram tão rapidamente perto dos dois feridos que ambos se surpreenderam. Os homens montados eram sete no total, o que os liderou desceu de seu animal e retirou o chapéu, o que fez Roy perceber que também utilizava um. Seus dentes eram podres e seu rosto suado, seus olhos eram fundos e negros, o cabelo lembrava capim já morto, em suas costas carregava uma carabina, muito parecida com Clara. Roy fitou-o por alguns segundos e então se lembrou vagamente de quem era o homem, seu nome era Bob Conrad.


— Woaah. Que confusão os senhores aprontaram aqui, não é mesmo? — disse Conrad olhando mais para Roy do que o velho. — Cheguei a pensar que o ouro também tinha ido junto com toda essa gente.


Roy não conseguia entender sobre o que o homem estava falando, nada fazia sentido para ele naquele momento. A não ser as dores dos ferimentos em si mesmo que ele começava a diferenciar a origem. A dor na lateral de seu corpo provavelmente viera de algumas costelas quebradas, algumas pontadas de dor em alguns lugares diversos surgiram de algumas concusões e sua perna foi definitivamente baleada.


— Monstros, foram vocês que fizeram isso! — O velho manifestava uma raiva que parecia superior ao que ele podia suportar.


— Sim, fizemos, perdemos muitos dos nossos no processo, mas a tristeza que sentimos por eles agora vai desaparecer em breve quando ficarmos com suas partes da pilhagem.


— Conrad parecia se divertir.


— Malditos! Olhem para o que fizeram, será que não têm família?


— Não sei quanto aos outros, mas depois de hoje, se eu quiser poderei comprar uma.


Repentinamente, o ancião surpreendeu novamente Roy ao tentar se levantar e ir ao encontro de Conrad, com sua fúria maior que si próprio. Entretanto, nenhuma fúria consegue ser maior que uma bala, para ser mais exato, uma bala que entra em um lado da face e sai pelo outro deixando uma cratera quatro vezes maior. Conrad guardou a carabina novamente em suas costas. Aquele foi o momento em que Roy pareceu conhecer os outros homens que estavam lá.


Sabia que um deles era o responsável por conseguir pólvora, era um homem instruído e falava muitas línguas. Outro era um mexicano, mal falava inglês e sabia contar apenas até seis, o necessário para recarregar e recomeçar a matança. Os outros ainda eram desconhecidos, pois também as chamas já começavam a se apagar e a escuridão tomava conta de todos.


— Roy, você vem comigo agora. — Não era surpresa, se Roy conhecia Conrad a recíproca também era verdadeira.


— Nãao.... eu.... — O som da própria voz era estranho para o homem ferido, então ele decidiu permanecer no silêncio.


— Ah! Quem você acha que é para discutir? Para casa é que você não vai, isso se tiver uma.


Os sete homens haviam deixado uma carroça em um lugar próximo, Roy viajava jogado atrás de uma delas, outras pessoas também feridas estavam a seu lado, as infecções que podiam surgir dali eram inúmeras. Um dos homens havia levado Clara.


— Você vai simplesmente deixá-los levarem você? Deus sabe o que diabos vão fazer quando chegarmos vai saber onde! Seremos reféns com certeza, mas depois disso seremos inúteis! — Um homem que parecia ter morrido há dias era o dono dessas palavras. Roy pensou tê-lo reconhecido, qual era mesmo seu nome? William? Travis? Ele não conseguia lembrar, mas pelo que pouco conseguia recordar ele já devia estar mesmo morto, mas não tinha tempo para debates sobre vida e morte, queria apenas descansar.


— Hey, você é um tolo sabia? Alguém quer salvar sua vida aqui, eu já estou ferrado!


— Tudo que Roy queria era que o homem ficasse quieto. — Esse cara morto aqui do meu lado tem uma arma na cintura, você sabe atirar não é? É claro que sabe, hoje eu vi você matar muita gente, não venha me negar isso. Você é dos bons.


O homem ficou quieto depois que Roy pegou a arma e a escondeu sob o casaco, ao contrário de Clara, estava carregada.


— Jonas, Stuart e Michael morreram. — informou o homem que conseguia a pólvora. Roy acordou e olhou para os outros deitados na carroça e para o homem que os analisava, apenas ele estava se mexendo, ao seu lado o que havia falado com ele antes de adormecer estava calado até demais. Seu nome não era nem Jonas, Stuart ou Michael, até onde Roy conseguia se lembrar.


— Roy, você está bem? — Conrad apareceu para verificar e notou que ele era o único a se mover. Então estendeu a mão.


Aquele gesto, estender a mão, era uma marca de Conrad, não, na verdade, a marca era a pistola de carga única por baixo da manga que ele utilizava em seus cumprimentos covardes. Roy sabia que estava ferido demais, sua união com os mortos apenas piorou sua situação, seja lá o que Conrad preparava para ele, não seria mais possível, era dia, as montanhas estavam distantes, assim como as cidades, Roy morreria até lá.


— Foi o único a agüentar até aqui, considere-se um homem de sorte! — Conrad ainda estendia a mão.


— Talvez... um pouco de sorte para mim... — Roy tentou dizer. — Mas não para você. — Disse numa calma como se estivesse lendo uma receita de torta, então sacou a arma escondida com destreza. Alvejou Conrad, o homem da pólvora e um terceiro que não conseguia se lembrar, antes que esses pudessem perceber o que havia se passado. Arrastou-se para fora da carroça e olhou para onde os homens haviam acampado. Nenhum deles parecia estar a caminho, talvez tenham pensado que os tiros pertenciam a Conrad e os outros com a finalidade de matar os doentes como ele. Estavam enganados, Roy pensou, os tiros não pertenciam a Conrad nem aos outros homens, mas as balas agora eram deles.


A perda de consciência já se tornara algo comum. Roy sabia que havia caminhado o máximo que pode naquele deserto. O sol havia esquentado tanto sua cabeça que ele não mais se importava, pensamentos fluíam em seu cérebro de forma desordenada como um quebra-cabeça. Ele caiu mais uma vez, primeiro de joelhos, depois de todo o corpo, mas antes que navegasse pelo rio da inconsciência, conseguiu amontoar algumas peças de suas lembranças:


Estava em seu cavalo, Clara em mãos, uma caravana passaria por ali a qualquer momento.


— Temos homens infiltrados. — O homem no outro cavalo disse. — Eles sabem o sinal.


— Soube que há um grande carregamento de pólvora na caravana, além do ouro. — Disse Roy.


— Sério? Então eles deviam trazer mais homens com eles.


— Acho que já estão em grande número.


— Não o suficiente.


— Humph... De todo modo, vou preparar para dar o sinal. Deseje-me sorte.


— Boa sorte. — Disse Bob Conrad.

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sexta-feira, 31 de julho de 2009

A Santa Imolação

- Me safar, Maninho? Me explica como é isso? Como um pai que segurou o filho nos braços...

Emanuel fecha os olhos, apertando com força as pálpebras, ao mesmo tempo em que tenta equilibrar o inspirar e expirar. Porém, o tremor nos maxilares não se aquieta. Esfrega as costas da mão sobre os olhos, abortando as lágrimas por nascerem.

- Ele tinha oito anos, Maninho. O moleque era alegre, não maltratava ninguém. Estudava muito, só tinha notas boas... ele iria sair daqui um dia, Maninho. Seria “gente de bem”. A primeira pessoa em minha família que seria.

Emanuel luta contra suas emoções novamente, desta vez socorrendo-se em uma pausa prolongada nas palavras e o acender de um cigarro. Dá umas boas tragadas até erguer os olhos de encontro aos de Maninho. Sente-se timidamente satisfeito, ao ver o horror nos olhos de seu interlocutor. E sente-se homem por enfim poder olhá-lo nos olhos, sem temer, sem ser submisso, refém das vontades do outro.

- Me explica como é isso, Maninho? Eu vi o sangue encharcar o peito da camisa dele, eu contei cada gemido e suspiro. Eu o ouvi implorar, Maninho: “pai, pai, me ajuda. Tá doendo muito. Eu não quero morrer... Me ajuda, pai.” E eu disse que tudo iria ficar bem, que eu não deixaria que ele morresse – aperta o cigarro entre os lábios e puxa uma boa porção de fumaça para dentro de sua boca - Eu menti pra ele. Minhas últimas palavras para o meu filho foram uma mentira, Maninho!

Emanuel não tinha mais forças para segurar a emoção. Baixa a cabeça e o olhar e deixa que o pranto desfigure seu semblante. A sua frente, assustado, sem compreensão da dimensão do que estava por ocorrer, Maninho o fita. Sente ódio de Emanuel. Ódio desse senhor de quarenta e tantos anos, baixo, magro, fraco... Como ele pudera aprisioná-lo? Como ele pudera fazer Maninho refém, deixá-lo a sua mercê? Emanuel era apenas um homem comum. Um homem como tantos outros moradores daquela favela miserável. Mais um dos que viravam o rosto ou baixavam os olhos para não “verem”, na esperança de não “serem vistos”. E agora Maninho estava ali, preso aos grilhões na parede crua de alvenaria, olhando para Emanuel – Um merda – mas que o fizera prisioneiro.

- Caralho Emanuel! E você acha que me matar vai resolver isso? Você vai é foder com tudo de uma vez. Você tem família, você tem mais dois filhos. O que você acha que vai acontecer com eles? Assim que meu pessoal souber que foi você... cara, você é um homem morto!

E Emanuel gargalha, levantando a cabeça e olhando para Maninho. Limpa o rosto com o punhos da camisa. Levanta-se da cadeira e acocora-se frente a seu prisioneiro. A centímetros da face de Maninho, sente seu hálito podre, ve o medo em seus olhos. E sente-se poderoso, como nunca. Aperta o pescoço de Maninho. Não para matá-lo, mas apenas para vê-lo sofrer com a escassez de ar

– Desde que nasci, Maninho, sou um homem morto. Rastejando pelos becos, como uma pálida sombra. Fugindo da violência e insultos de meu pai, fugindo dos moleques enturmados aqui na favela e na escola, rezando para ser deixado em paz por todos. Para poder viver minha vida. Só isso... Mas que vida tem um homem morto? - solta a garganta de Maninho, empurrando sua cabeça de encontro aos tijolos da parede.

Regozija-se ao ver dor e medo nos olhos de seu prisioneiro. Levanta-se revitalizado, sem tirar os olhos de Maninho. Subjugar aquele homem lhe dava força, lhe dava vida. A vida que nunca tivera. Vira-se e caminha até uma pequena janela basculante, esculpida junto a porta de entrada daquela cozinha em construção. Lança o olhar pela frestas entre as abas. Parecia procurar por alguém, por alguma notícia ou manifestação do mundo lá de fora. Porém, na escuridão da madrugada ficava difícil ver com clareza. O local era pouco iluminado. Quase como na favela de que vinha. Na favela de Maninho. Sombras e mais nada. Olha para seu relógio e pensa – Alfredo está atrasado – e isso podia ser preocupante. Volta-se para a cadeira e senta, apontando a arma para Maninho.

- O mais cruel Maninho, é que precisei de você e daquela corja de vagabundos que cuidam do tráfico na favela... de você e daqueles policiais canalhas que deram a batida. Precisei que meu filho mais novo morresse para poder descobrir o quanto eu mesmo já estava morto. E o quanto não valia nada aquela vida. Você vê, Maninho? Entende? Eu devo a vocês essa descoberta. E eu devo a vocês ter renascido.

- Você acha que me matar vai te fazer vivo? - e Maninho pôs-se a gargalhar. Quase histérico, tentando entender o que passava pela cabeça de Emanuel. Percebeu que seu algoz mantinha os olhos fixos nele, sem qualquer expressão no rosto. Maninho não podia desequilibrá-lo. Não podia fazer com que puxasse logo aquela porcaria de gatilho e acabasse com sua espera. Não tinha medo de morrer. Entretanto, se horrorizava por ser subjugado. Conhecia a crueldade. Praticava a crueldade com maestria. E um tiro, um único disparo em seu peito, lhe parecia uma morte boa e digna - Emanuel, pensa bem... eu não dei nenhum tiro. Meus camaradas se defenderam, revidaram os disparos dos homens. Dos policiais que mataram seu filho. Foram eles, Emanuel. Você sabe que foram – Emanuel continuava a olhá-lo, impassível – Faz assim: me solta. Eu deixo pra lá. Te mato, mas com honra, com dignidade. Um tiro na cabeça e acabou. E libero uma grana legal para tua mulher, para teus filhos. Eles vão poder sair daqui. O que me diz? É um bom trato. E não matei teu filho, porra! Aceita então.

- Todos nós o matamos, Maninho. Cada morador dessa maldita favela, cada policial e traficante. Cada pessoa nessa cidade que não fez nada, nada mesmo para impedir que isso acontecesse. E acontecesse de novo e de novo e de novo – balançou a cabeça levemente, numa negativa – Quantas vezes eu vi isso na TV? Quantas crianças mortas, velhos mortos, mulheres mortas. Por balas que eram para você, Maninho. Para os policiais... e eu não abri minha boca, se não para uns resmungos de piedade. Não movi um músculo... Até que foi o meu filho. E eu tive que passar por essa dor para saber. Seis meses em agonia, sofrendo por não ter feito nada, para agora saber que preciso fazer. Para não acontecer de novo.

- E me matar vai acabar com as balas perdidas, seu velho de merda?

- Eu não vou te matar, Maninho. Você é lixo, escória. Não representa nada pra ninguém. Nem para os seus. No outro dia, teria um novo chefe do tráfico. No outro dia, tua mulher botava um outro homem na cama. Você não vale nada e não tem serventia para o meu plano.

- E pra que você me pegou, seu porra?

- Para assistir a dor nos seus olhos, como eu assistia a TV antes de meu filho... - e as batidas na porta cortam suas palavras. Aguça os ouvidos, tentando buscar mais sons, mais pistas.

- Emanuel, abre. Sou eu, Alfredo.

- Até que enfim – disse Emanuel, levantando-se rapidamente de sua cadeira e correndo em direção a porta. Abriu-a.

Alfredo era um senhor negro baixinho, pouco mais de 1,60 de altura, barrigudo, camisas puídas sempre para fora das calças bastante manchadas pelas tinta dom ofício de pintor. Alguém que há muito tempo, não se importava. Viúvo, dois filhos presos por tráfico de drogas, camaradas de Maninho. Ao lado dele, um homem branco, forte, 1,80 e tanto de altura, fardamento da policia, cabeça encoberta por um capuz negro. A cena era até que cômica. Ou surreal. Como um pequenino daqueles conseguira a proeza de capturar aquele grandalhão?

- E então? - indagou-lhe Emanuel, dando passagem para que Alfredo e seu prisioneiro entrasse.

- Me ajude a prendê-lo na parede – pediu Alfredo. Os dois sentaram o homem ao lado de Maninho, que assistia com surpresa a tudo aquilo. Abriram as algemas presas por trás das costas e prenderam-as nas presilhas fixas na parede. Alfredo puxou o capuz negro e todos viram o rosto desesperançado do Tenente Rodrigues, amordaçado. Alfredo e Emanuel afastaram-se dos prisioneiros, falando baixo para não serem ouvidos. Os olhos do policial examinaram atentamente o local. Mas era um olhar sem vida, de alguém que já havia desistido. Ele parecia saber sobre seu trágico destino.

- Alfredo! - gritou Maninho – Você sabe que teus filhos vão morrer, se você se envolver com esse louco. Eu tô cuidando deles, protegendo eles lá dentro da cadeia. Mas se eu morrer, eles morrem também. E não vai ser de uma morte bonita de se ver, velho.

- Meus filhos já morreram faz tempo. Quando você os adotou. Quando a sua Droga tirou eles de mim. Não tenho filhos por quem eu possa fazer algo. Mas posso fazer pelos filhos de outros, que ainda nem nasceram.

- Você e esse outro maluco acham que são super heróis? Acham que matando um traficante e um policial tudo se resolve? Que isso paga tudo? E que o mundo vai ser salvo?

Emanuel sorriu – Você não vai morrer, Maninho. E nem o Tenente Rodrigues. Já te disse isso – olhou para Alfredo – Você trouxe as fotos? - Alfredo fez um sim com a cabeça e entregou o pequeno pacote pardo à Emanuel, que abriu-o e folheou os dois álbum – Solta a mão esquerda de cada um deles – ordenou a Alfredo, que o atendeu prontamente, sob a proteção de seu revolver.

Tanto Maninho quanto o Tenente Rodrigues flexionavam as mãos para livrarem-se da dormência. Emanuel apenas observava-os, buscando capturar o estado de espírito daqueles homens. Buscando compreender qual seria o melhor momento para seu golpe final – Agora são duas e cinquenta e cinco da manhã. A nossa Favela esta praticamente dormindo. Fora os teus Camaradas, sempre atentos, sempre prontos para vender mais um pouco de morte. Mas nós demos um jeito neles também - sorri novamente - Não, Maninho. Não morreram e nem vão morrer. Não vai haver mortes de canalhas nesta noite. Apenas Sacrifícios. Sagrados.e puros. Para levar nossa mensagem aos homens e a Deus.

Um calafrio percorreu a espinha de Maninho – Do que você tá falando, seu maluco? Que porra de sacrifício é esse? - olhou para o Tenente e viu lágrimas brotarem nos seu olhos – Você sabe? Você tá entendendo esse doido?

- Ele sabe sim. Ou supõe. Foi pego dentro de sua própria casa. Aguardou por lá, enquanto eram feitos os preparativos. Enfim, viu tudo. Entendeu a trama – Emanuel andou em direção aos dois homens e jogou-lhes sobre o colo um álbum de fotos para cada um. O Tenente Rodrigues apenas chorava. Mesmo com a mão solta, não se preocupava em tirar sua mordaça e nem segurar o álbum com as fotos. Já entendera tudo, já percebera o desfecho da história. E não tinha forças sequer para protestar. Ou gritar por socorro – As três horas da manhã nossos dispositivos vão disparar. O fogo vai se alastrar rapidamente. Não sobrará muito para ser visto depois. De uma boa olhada nas fotos, Maninho. São as últimas imagens de sua família viva. Porque em cinco minutos, ela vai queimar.

Os olhos de Maninho arregalaram-se em desespero - Minha família – e foi folheando as fotos de seu álbum. O pequeno Lucas, sua esposa, sua mãe e até o seu irmão mais novo, Jonas. Todos ali, amordaçados e amarrados juntos a galões de gasolina – Meu Deus, Emanuel! Não faz isso caralho. Me mata, mas não faz isso porra! Não mata eles não... eles não te fizeram nada. Fui eu, fui eu .. Eu, meus camaradas, os policiais... Minha família não...

Emanuel e Alfredo dão as costas aos homens e se encaminham para a porta. Antes de sair, porém, Emanuel volta-se para Maninho e Rodrigues – Neste mesmo horário, a favela pegará fogo. O incêndio será feroz, voraz em demasia. Mas só as crianças, velhos e mulheres estarão nos barracos. Nossos companheiros já removeram os homens adultos – sorri, ao ver os olhos de Maninho cheios de lágrimas, em desespero e até incredulidade - Isso, Maninho. Somos em muitos. Quarenta pessoas que simplesmente cansaram-se e... entenderam que só a imolação pode reparar o mundo. Só quando cada Homem, culpado por omissão ou crueldade, perceber o quanto dói a vida. E entender que é preciso acabar com a bestialidade – Emanuel confere seu relógio. Em um minuto, começaria o Inferno na Terra. Em um minuto, estaria ele próprio condenado a danação eterna. Mas não havia outra forma. Não via como tocar o coração daqueles homens se não fosse assim, com a própria crueldade com que traçaram suas vidas – Minha família também está lá. Meus outros dois filhos, minha esposa – nem se preocupou em deter uma lágrima que deslizou por sua face – As TV s e Jornais vão receber a matéria, assim que estiver consumado o sacrifício. Saberão também onde encontrar vocês dois. Saberão também o porque de tanta dor em uma só noite. E também saberão em que Igreja me encontrar, juntos aos meus novos companheiros, prontos para um tiroteio final. Um último confronto entre “mal” e o “mal”.

Os dois homens saem e fecham a porta da casa em construção, deixando para trás o pranto dos vencidos Maninho e Rodrigues. Emanuel contempla o horizonte avermelhado. Há poucos quilômetros dali, as chamas lambem as madeiras dos barracos. Emanuel faz o sinal da cruz. Porém, não pediria perdão. Não havia perdão para o que acabará de fazer.



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