Comunicado Importante - 3 contos do blog serão publicados

É com muito orgulho que venho anunciar, que eu Debby Lennon e Sandra Franzoso iremos participar da antologia Jogos Criminais. A Antologia será lançada no dia 15/01/2011, Na Biblioteca Viriato Correa, situada a Rua Sena Madureira, 298 - Vila Mariana. Meus contos Anjo Perdido e Joana e Maria, já foram postados aqui no blog e agora está aperfeitoado e com mudanças no final,o mesmo acontece com o conto O Noivado da Sandra. Maiores informações em breve.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Nem todos serão cordeiros - Capítulo 2

A noite nas grandes praças do centro de São Paulo ainda o impressionava, apesar dos quase seis anos vivenciando-a. A escuridão derramando-se sobre as sutilezas da arquitetura da majestosa Catedral, os espelhos d'água refletindo as luzes excessivamente artificiais da iluminação pública, os bancos da praça ocupados por um ou outro mendigo mais corajoso, num sono descuidado e convidativo ao espancamento e morte. Grupos de crianças perdidas, dormindo amontoadas em cantos mais escuros e fronteiriços à praça, alguns ainda acordados, consumindo mais uma pedra.

Em nada a cena lembrava a fúria vencedora do dia claro e corrido, desenhado por vitoriosos ou outros tantos que ainda buscavam seu lugar ao sol, quando o espaço era disputado em milímetros por pedestres e ambulantes. Após o anoitecer, a praça pertencia aos excluídos. Aqueles à quem já não importava a conquista, o sucesso – Apenas mais um dia – era tudo o que almejavam estes, pensou Glauco, enquanto deslizava quase sorrateiro pelo calçadão. Venceu a distância até os degraus da Igreja e sentou-se por ali, para poder contemplar melhor seus possíveis inimigos. E também aos “alvos”. 

Meteu a mão no bolso de seu paletó encardido, bastante gasto pelos anos de uso – O preço de minha invisibilidade – e apanhou a caixa de fósforos e o maço de Eight. Apenas dois no maço - E nenhum camelô com coragem suficiente para enfrentar o abandono desta terra - A noite seria longa, sem poder fumar. Acendeu um, ainda hesitante pela imprudência. O pulso de uma chama, o estalo do fósforo. Qualquer coisa neste ambiente poderia atrair a atenção de outros. Mas a sua necessidade de repor a nicotina era maior que a razão. Encheu os pulmões, numa extenuante tragada. Ao mesmo tempo, aguçou os ouvidos, como um pastor alemão, para compensar a desnecessária exposição de seu personagem. Focou a atenção num grupo de adolescentes, há uns cinquenta metros de onde estava, quase na esquina da Senador Feijó. O mais velho, talvez tivesse uns dezessete anos. Os outros, bem menores. Talvez na faixa de treze ou quatorze anos, sentados sob a proteção do maior - Muito imprudentes também – analisou ao ver as fagulhas das pedras de crack saindo dos cachimbos. Contou os alvos – Quatro em transe. Um em pé, possivelmente entorpecido também – enfiou a mão dentro de seu saco de quinquilharias. A barra de ferro estava ali. Uns doze quilos de metal maciço, suficientemente rijo e pesado para esmigalhar alguns crânios. Mas não iria se apressar em fazê-lo. Seu cigarro estava quase por inteiro, a espera de ser fumado com paixão. E aqueles moleques não iriam a lugar algum após se entupirem de crack. Deu mais uma voraz tragada e soltou a fumaça em fragmentos miúdos, quase como numa crise de soluços.

Por quantas mortes fora responsável durante os últimos seis anos? Drogados, skin-heads, punks, alguns policiais e até inocentes que estavam no lugar errado? Cem, duzentas, mil, mais? Não guardava esse número. Apenas uma execução fora-lhe marcante, doída. Todas as demais – Apenas trabalho...

Deixou-se levar por algumas lembranças persistentes. O telefonema para o se celular. Sua chegada em casa, no meio da tarde, os corpos de sua esposa e de sua filha ainda pré-adolescente sobre o tapete da sala de visitas. Muito sangue e dor tatuada em suas faces mortas. Um drogado, a necessidade da droga, do dinheiro para adquiri-la. Um taco de beisebol, duas mortes, outras tantas vidas destruídas. Um maldito drogado de dezesseis anos – Meu próprio filho – E a sensação de impotência, de ter errado muito. Educação, criação, repreensões na medida exata e na hora precisa... não conseguia equacionar a questão. Não conseguia respostas. Apenas a depressão. Oito longos meses afastado de sua Metalúrgica, trancado em casa, chorando em sessões com seu psiquiatra, se entupindo de antidepressivos – E pra que? - Para aplacar o ódio que sentia por si próprio e pelo seu filho? - Por aquele canalha que me tirou tudo, tudo mesmo?

Encontraria suas respostas nas ruas. Deixou os remédios de lado, a análise, os amigos. E foi atrás de seu filho. Sabia que andava pelas ruas. Atras de mais drogas e longe da polícia. Tinha a certeza de que iria encontrá-lo.

De fato, nem foi uma longa busca. Duas semanas vivendo como maltrapilho, morador de rua, e lá estava Diogo. Magro, quase um cadáver. Encostado numa das árvores da República com mais outros dois amigos. Nem reconheceu Glauco, com sua imensa barba postiça, roupas imundas e rasgadas, pele coberta por uma crosta de sujeira e fedor. Ninguém o reconheceria mesmo. Ninguém se aproximava o bastante para isso. Nem com um olhar. Já esbarrara em diretores de sua empresa, que tinha sede administrativa ali na Barão de Itapetininga. Como sua própria secretária também. Nenhum deles lançou sequer um olhar para ele. Distanciaram-se mais meio metro ao perceberem aquela presença incomoda, recostado sobre uma parede qualquer – Meu manto de invisibilidade. Meus super poderes – sorriu, concluindo.

Só teria que esperar a hora certa, para abordar Diogo. Algumas horas mais e teria sua vida de volta. A vida que Diogo lhe roubara. Olhou para um dos relógios da praça – Nove da noite. Cedo ainda – teria que ser a sombra do moleque até a madrugada, para que não lhe escapasse.

O grito abafado de uma criança trouxe-o à Sé novamente. Atentou para o som, procurando identificar sua origem – As escadarias do metrô – Apagou seu cigarro e caminhou apressado, porém silencioso. Abordou a escadaria lateralmente. Uma pequena olhadela e viu três moleques, não mais que quinze anos, subjugando um outro de oito ou nove anos, para que fosse estuprado pelo maior do grupo. Glauco empunhou sua barra de ferro e, num pulo calculado, voou sobre eles. Alguns estalos de ossos partindo, gritos, sangue respingando para todos os lados. Questão de segundos. E apenas o menino de oito anos olhava-o nos olhos, apavorado.

- Vem. Temos que sair rápido daqui, antes que alguém nos veja.

E assim, o Seu Glauco entrou em minha história - Glauco - Como um misterioso herói underground de HQs. Eu senti repulsa por ele, no primeiro instante. Por seu cheiro, por sua horrenda aparência. Mas era-lhe grato. Na minha primeira noite na rua, ele apareceu e me resgatou de um massacre. Lembrei de minha mãe, de seu alerta sobre o mundo. E então, pensei em Glauco como um pai. O que nunca tive. E o que entrava agora na minha vida, para restituir-me uma família. Sentia-me feliz, apesar do corpo e alma doloridos pela humilhação do estupro.

Sumimos, entre ruas escuras e becos. Passos apressados, porém não numa corrida, caminhamos rumo à Praça da República. Eu não imaginava minimamente as possibilidades que estavam se abrindo para mim. E nem ao mundo que eu viria a pertencer. O estranho mundo de Glauco.

continua na próxima sexta

não leu o Capitulo 1 -  Clique aqui e leia

8 comentários:

Tereara disse...

Vou esperar ansiosamente pelos capítulos que faltam...mas o texto me fez refletir muito sobre droga e drogados...os excluidos como a sociedade diz. O que leva um jovem a experimentar drogas? curiosidade?...nem sempre são jovens filhos de pais ausentes (pelo trabalho)ou filhos da pobreza, as vezes eles são crianças bem cuidadas e amadas.
por isso não tenho pudor de dizer que traficantes deveriam ser todos executados...que me perdoem os moralistas, que me perdoe você.
abraço

J S Pereira disse...

As questão das drogas é crucial mesmo, Tereza. Teremos que achar respostas, se temos a pretensão de sobreviver como civilização, com alguma dignidade.

Realmente, eu sou contra a pena de morte. Não gosto desse poder na mão do Estado. Mas entendo perfeitamente quando uma pessoa clama por ela. E sei que não sou poucas. Cada vez mais pessoas perdem seus filhos para os traficantes. De uma forma ou de outra: como drogados ou vítimas da violência urbana.

Obrigado pelo incentivo constante.

Abraços

arte-e-manhas.com disse...

José,
Está a ficar empolgante! Gostei muito do Glauco e das suas motivações. Espero saber um pouco mais dele no próximo capítulo. Enfim, está excelente!
Grande abraço
Luísa

LISON disse...

Saudações!
Amigo José Sidney,
A riqueza de detalhes de seu Conto é deveras perfeita. O tema hoje, abordado é delicado mas, você soube muito retratar o ponto em questão trazendo a baila o maior desafio de todos os séculos...A DROGA!
Parabéns por mais um excelente texto!
Abraços!
LISON.

J S Pereira disse...

Oi Luísa!

Glauco personagem que está me dando trabalho. Não quer que acabe em mais dois capítulos. Acha que tem muito trabalho a fazer ainda rsrs

Está me lembrando um pouco estórias em quadrinhos. E me dando uma idéias.

Vamos ver como caminha.

Abraços

J S Pereira disse...

Obrigado Lison!

As drogas são um problema sério mesmo. E teremos que enfrentá-la com vigor, se não quisermos ver nossa sociedade fragilizada.

Abraços

totinhasocorro disse...

Estou anciosa pelo próximo capitulo.
Realmente a mente humana é obscura e complexa. Por mais estudos e pesquisa que houver, esse mistério humano será enexplicável.Mas é o bastante tentarmos ao modo de cada um, conviver e ou ajudar, quando pudermos, à alguem quando de nós necessitar.

J S Pereira disse...

Olá totinha,

A psique humana é mesmo complexa. Evoluímos, mas uma parte animal ainda nos prende a um passado de sobrevivência conquistada pela violência. Neste universo mental, tentamos construir um delicado equilíbrio. Que em algumas pessoas, se rompe. E aí, acontecem as coisas.

Obrigado pelo comentário. Estou em débito com a conclusão. Mas vou me esforçar para concluir o capítulo nesta sexta feira;

Abraços

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