Comunicado Importante - 3 contos do blog serão publicados

É com muito orgulho que venho anunciar, que eu Debby Lennon e Sandra Franzoso iremos participar da antologia Jogos Criminais. A Antologia será lançada no dia 15/01/2011, Na Biblioteca Viriato Correa, situada a Rua Sena Madureira, 298 - Vila Mariana. Meus contos Anjo Perdido e Joana e Maria, já foram postados aqui no blog e agora está aperfeitoado e com mudanças no final,o mesmo acontece com o conto O Noivado da Sandra. Maiores informações em breve.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

As preocupações de Dona Marilza

- O mundo está perdido mesmo – pensou Dona Marilza ao terminar de ler uma das notícias de capa do jornal, dando conta de mais um horrível crime do Maníaco do Coração – Acham que é algum ritual satânico...

Mas hoje ela não tinha tempo para refletir muito sobre essas maluquices. Tampouco, tinha a compreensão da mente humana para as crueldades. Como era possível conceber uma pessoa que matava o semelhante para devorar-lhe o coração? E ainda mais, matava crianças?

Nos seus tempos de juventude também houveram pessoas más. O Bandido da Luz Vermelha, o Chico Picadinho e outros tantos que não tinham piedade nenhuma - Pessoas sem alma! - que aterrorizavam o imaginário coletivo. Mas eram notícia de página inteira. E por meses. Hoje em dia, um crápula deste era só mais uma entre tantas outras notícias ruins estampadas ali. Um pouquinho mais de destaque talvez, por ser a oitava vítima – Quase três por mês – fez as contas e arrematou– Só pode ser essa porcaria da droga!

Ainda deu uma olhada na foto da menina, estirada numa clareira de um matagal qualquer, com o peito completamente aberto – O Toninho precisa parar de comprar estes jornais. Como publicam uma foto dessas? Não pensam na família da pobre criança?

Mas Dona Marilza tinha outras preocupações agora. Precisava terminar a encomenda de salgados para a festa da Dona Cleide até as 18:00 horas, para que o Toninho pudesse entregá-los e receber a outra metade do pagamento. Depois da aposentadoria de seu marido há dez anos, por conta de um infarto, essa sua atividade de salgadeira já representava a maior fatia da renda familiar. Sem ela, a vida seria bem difícil. E não perderia uma cliente por ficar de tagarelice com os seus próprios pensamentos. Em todos os anos de encomendas aceitas, nunca perdera a hora de uma só festa. Não seria hoje que isso aconteceria – Ainda mais com a Cleide, que é tão amiga! Ah, mas não vou perder a hora mesmo.

Porém sabia que trabalharia com o coraçãozinho apertado, por ver a menina toda ensanguentada – Pobrezinha... deve ter sofrido muito na mão desse animal! - Mesmo que o jornal dissesse que nenhuma das vítimas havia sido abusada sexualmente ou torturada. O Maníaco somente as matava. Um única e precisa facada no peito. E depois, abria o tórax da vítima e arrancava-lhe o coração – Dizem, que pra comê-lo à dentadas – e se horrorizou ao visualizar em sua mente a imagem de um homem medonho, endemoniado mesmo, mastigando os corações das crianças.

Assim, Dona Marilza foi passando sua tarde. Entre um pensamento e outro, sobre os crimes que lhe afligiam, e o empanar de suas coxinhas de frango. Perto das 17 horas, começou a fritar os 300 quitutes e armazená-los no forno pré-aquecido – Quando meu marido Toninho entregá-los, ainda estarão quentinhos – raciocinou com satisfação.

Mesmo com tudo correndo bem e de acordo com o planejado, não conseguia livrar-se daquela maldita notícia – Quantos anos teria aquela pobre menina? Doze, Onze anos? - parecia-lhe tão jovem e bonita. A pele clara, cabelos loiros e compridos, uma franjinha delicada... E de repente, vinha aos seus pensamentos sua neta Talita – Meu Deus, proteja minha menina!

A semelhança entre as vítimas e sua neta ficava mais evidente a cada novo ataque. Era como se o assassino fosse aprimorando a arte de escolher suas vítimas, buscando enfim a beleza de sua neta como objetivo final. E isso dava arrepios em Dona Marilza – Que bobagem, mulher! - tinha dito Toninho ao ouvir suas observações – Ele ataca meninas. Brancas e loiras. E só nisso se parecem com a nossa Talita. E ponto! - Mas não adiantava-lhe em nada ouvir as palavras do marido. Sentia a aflição subir-lhe pela garganta, estreitando os caminhos do ar. Cada nova criança morta, mais semelhanças com Talita ela via. E temia pelo dia em que abrisse o jornal e lá estivesse a neta, estirada no matagal – Ai Meu Deus, não permita que esse monstro toque nela!

Os salgados estavam fritos enfim. E ainda tinha uns vinte minutos de folga. O que era bom, para poder tomar um café com o Toninho. Mas não tão bom para as coxinhas, que poderiam perder a aparência de frescor, se ficassem muito tempo presas na embalagem recoberta por papel alumínio, sem respirarem.

Mesmo assim, pôs duas xícaras à mesa, encheu-as de café e leite e chamou – Toninho! Vem tomar um café antes de fazer a entrega da Dona Cleide – e Seu Toninho atendeu rapidamente ao chamado de sua mulher, porque junto com esse cafezinho, com certeza teria um prato de salgados para beliscarem.

Ao se aproximar da mesa, os olhos de Toninho brilharam, admirando os quibes, bolinhos de carne, coxinhas de frango e bolinhas de queijo. Tudo quentinho, só para os dois. Deu um sorriso – Sabe mulher, se não fosse por estes teus mimos antes das entregas, juro que eu arranjava outro emprego. O salário que me pagas é péssimo – e soltou sua gargalhada mais estridente – mas a marmita.... hum, compensa toda tua muquiranice!

Dona Marilza deu-lhe um leve tapa no ombro e mandou-o sentar-se. Ao que obedeceu prontamente, já passando a mão num bolinho de carne e dando-lhe uma boa mordida.

- Sabe Toninho... eu queria pedir para você não comprar mais esse jornal horrível. Nenhum jornal... Ou que não os deixe aqui em casa, ao menos. Leia e depois largue-os lá no carro. Não quero mais ver notícias sobre aquele homem... você sabe.

Seu Toninho solta um suspiro paciente. Por dez longos anos, a mulher sempre voltava a esse assunto. E Toninho sentia os olhos arderem-lhe, sempre que acontecia esta conversa insólita.

Balançando a cabeça, desenha no ar um sim silencioso. Resignado, pega seu jornal de esportes, que trazia na primeira página fotos dos heróis da última rodada do Brasileirão, dobra-o ao meio e enfia-o no bolso de trás das calças.

Queria poder abraça-la, dizer “esta tudo bem, Marilza. Já passou, já foi”. Mas como, se para Marilza, a qualquer instante Talita entraria por aquela porta, com seu sorriso aberto e gritando? – Vó, vó, olha só que eu fiz na escola pra senhora – E pularia num abraço apertado em Toninho e na avó. E então dariam-lhe os salgadinhos e brigadeiros de que tanto ela gostava, enquanto olhariam os desenhos feitos para ela.

– A nossa Talita... - deixou escapar num murmúrio – de quem aquele maníaco tirou a vida.

- Não Toninho! Não diga uma bobagem dessa! Nem por brincadeira... – Dona Marilza cobre a o rosto com as mãos em concha – Eu sei que ele quer isso, ele quer Talita. Eu vejo nas fotos. São tão parecidas, meu Deus... Mas Deus é mais forte. Não vai deixar isso acontecer. Não vai acontecer... Nunca mais diga isso Toninho – e o choro miúdo de Marilza surpreende o silêncio da cozinha.

Toninho faz um carinho nos cabelos desgrenhados da esposa – Me desculpe, mulher. Não devia ter dito. Me perdoe. Vamos deixar pra lá. Deus é mais forte mesmo. E Ele cuidará de nossa menina – Fecha os dedos, entrelaçados aos cabelos de Marilza, num aperto, enquanto cerra os olhos, expulsando a força suas lágrima. Tão doídas quanto as que deixara cair ao reconhecer o corpo de sua neta, dez anos atrás. Uma linda menina de 11 anos, de pele branquinha, cabelos dourados e brilhantes, deitada no mármore do Instituto Médico Legal. Não havia mais sorriso em seus lábios, não havia mais cores em seu rosto. Apenas um buraco em seu peito, por onde a vida se esvaíra. E uma menção nos jornais de que a nona vítima do Maníaco fora encontrada.

Um assassino bestial, que arrancava mais que o coração de suas vítimas: arrancava do mundo a alegria, a esperança e a fé; nos homens e em Deus.

O peito de Toninho arde, como naquele dia distante. Porém, desta vez não podia infartar. Tinha que cuidar de Dona Marilza. Tinha que entregar os salgadinhos na casa de Dona Cleide.


sábado, 18 de julho de 2009

A Fera na Caverna

Pessoal, hoje posto um conto de um autor que eu havia citado na minha primeira coluna. Este conto, H.P. Lovecraft, escreveu quando tinha entre 15 e 20 anos (a data de nascmento dele é imprecisa), representa uma das vertentes dele e se aplica muito bem ao tema de nosso blog, sendo um dos seus melhores trabalhos, ainda que precoce.


Espero que gostem.

N.'.


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A FERA NA CAVERNA - H.P. Lovecraft

A conclusão terrível que vinha se impondo gradualmente sobre minha mente confusa e relutante era agora uma certeza aterradora. Eu estava perdido, completa e desesperadamente perdido nas vastas e labirínticas reentrâncias da Caverna Mamute. A situação se apresentava de tal forma que, por mais que forçasse a visão, em nenhuma direção era possível distinguir qualquer objeto capaz de servir como um ponto de referência que me colocasse no caminho da rua. Que eu nunca mais contemplaria a luz abençoada do dia nem correria os olhos pelos montes e vales aprazíveis do belo mundo exterior minha razão não podia mais alimentar a menor descrença. A esperança havia partido. Entretanto, doutrinado como fui por uma vida de estudos filosóficos, não deixei de sentir uma grande satisfação com minha conduta desapaixonada; pois apesar de ter lido freqüentemente sobre os frenesis desvairados a que as pessoas vítimas de situações similares se entregam, não senti nada disso, e fiquei calmo tão logo percebi claramente que havia perdido o senso de orientação.

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Tampouco o pensamento de que provavelmente teria me afastado além dos limites máximos de uma busca comum fez com que abandonasse minha postura sequer por um instante. Se devo morrer, refleti, essa caverna terrível e majestosa será tão bem-vinda como uma sepultura quanto a que qualquer cemitério de igreja poderia me proporcionar, uma idéia que trazia consigo mais tranqüilidade do que desespero.
A fome seria meu destino final, disso eu tinha certeza. Alguns, eu sabia, tinham enlouquecido numa circunstância como essa, mas eu sentia que aquele não seria o meu fim. O desastre que vivia era resultado de minha inteira responsabilidade, já que, sem avisar o guia, havia me separado do grupo ordeiro de visitantes; e, perambulando por mais de uma hora em caminhos proibidos da caverna, vi-me incapaz de retornar pelas curvas tortuosas que havia seguido desde que abandonara meus companheiros.
A tocha já começava a apagar-se; logo eu seria coberto pela escuridão total e quase palpável das entranhas da terra. Parado na luz instável e decrescente, refleti em vão sobre as circunstâncias exatas do fim que se aproximava. Lembrei dos relatos que ouvira da colônia de tuberculosos que passara a morar nessa gruta gigantesca buscando curar-se com a atmosfera aparentemente sadia do mundo subterrâneo, com sua temperatura estável e uniforme, seu ar puro e ambiente sossegado, mas que haviam encontrado em vez disso uma morte estranha e horripilante. Eu vira os escombros tristes das suas cabanas malconstruídas quando passara por elas com o grupo e tinha me perguntado que influência antinatural uma longa estada nessa caverna imensa e silenciosa exerceria sobre um homem saudável e vigoroso como eu. Pois chegara a oportunidade de tirar essa dúvida, afirmei severamente, desde que a falta de alimento não acarretasse uma partida muito rápida dessa vida.

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Quando os últimos raios intermitentes da tocha desapareceram aos poucos até a obscuridade, decidi que não deixaria uma pedra sem revirá-la e nenhum meio possível de saída seria negligenciado. Assim sendo, reunindo toda a capacidade dos meus pulmões, dei uma série de gritos na esperança vã de chamar a atenção do guia com meu clamor. Enquanto chamava, entretanto, tinha certeza de que as súplicas não tinham efeito algum e que minha voz aumentada e refletida pelas inumeráveis plataformas do labirinto escuro à minha volta não chegavam a nenhum ouvido a não ser os meus.
De repente, no entanto, parei para prestar atenção quando imaginei ter ouvido o som suave de passos que se aproximavam no chão rochoso da caverna.

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A minha libertação seria conseguida tão cedo? Todas as apreensões terríveis então haviam sido por nada e o guia teria notado a minha ausência desautorizada e seguido o meu curso procurando-me nesse labirinto de calcário? Enquanto essas indagações felizes surgiam no meu cérebro, eu estava prestes a renovar meus gritos a fim de que me descobrissem de uma vez, quando num instante minha alegria transformou-se em horror. Minha audição, que sempre fora sensível e que agora estava mais aguçada ainda com o silêncio completo da caverna, transmitiu para minha compreensão entorpecida a consciência inesperada e terrível de que aqueles passos não eram como os de qualquer homem mortal. No silêncio fantasmagórico dessa região subterrânea, o caminhar do guia calçando botas teria soado como uma série de batidas secas e incisivas. Os impactos eram suaves e furtivos, como os das patas de algum felino. Além disso, quando prestei bastante atenção, eu parecia acompanhar as batidas de quatro pés em vez de dois.

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Eu estava convencido agora que tinha provocado e atraído alguma fera selvagem com meus próprios gritos, talvez um leão das montanhas que se perdera acidentalmente dentro da caverna. Talvez, considerei, o Todo-Poderoso tenha escolhido para mim uma morte mais rápida e misericordiosa do que a da fome; o instinto de autopreservação, entretanto, que nunca estivera completamente adormecido, foi incitado em meu peito e, embora a fuga do perigo iminente pudesse apenas me poupar de um fim mais sombrio e prolongado, decidi-me mesmo assim a vender a vida o mais caro possível. Por mais estranho que possa parecer, minha mente não concebeu outra intenção por parte do visitante a não ser a hostilidade. Dessa maneira, não fiz ruído algum, na esperança de que a fera desconhecida perdesse seu senso de direção na ausência de um som que a guiasse como ocorrera comigo e, assim, passasse ao largo. Mas essa esperança não estava destinada a se concretizar, pois os passos estranhos avançavam firmes. Tendo evidentemente sentido meu cheiro, o animal poderia sem dúvida segui-lo a uma grande distância, algo factível numa atmosfera como a de uma caverna tão absolutamente livre de todas as influências que pudessem distraí-lo.

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Vendo, portanto, que eu tinha de estar armado para defender-me contra um ataque sinistro e oculto no escuro, tateei em meu redor em busca de fragmentos maiores de rochas que estavam espalhados por todas as partes do chão da caverna, e, pegando uma em cada mão para usá-las naquele momento, esperei com resignação pelo resultado inevitável. Enquanto isso o ruído hediondo das patas se aproximava. O comportamento da criatura era certamente muito estranho. A maior parte do tempo os passos pareciam ser de um quadrúpede, caminhando singularmente sem um ruído uníssono entre as patas traseiras e dianteiras, entretanto, em intervalos breves e esporádicos, eu imaginava que apenas duas patas estavam envolvidas no processo de locomoção. Fiquei a me perguntar que espécie de animal iria confrontar-me; ele devia ser alguma fera azarada que pagara por sua curiosidade de investigar uma das entradas da gruta temível com um confinamento perpétuo nessas reentrâncias intermináveis. Sem dúvida ela obtinha como alimento o peixe sem olhos, os morcegos e os ratos da caverna, assim como alguns dos peixes comuns que são levados pelas cheias do Rio Grande, que se comunica de alguma maneira oculta com as águas da caverna. Eu ocupava minha vigília terrível com conjecturas grotescas sobre quais alterações a vida na caverna havia provocado na estrutura física da fera, lembrando das aparências pavorosas atribuídas pela tradição local aos tuberculosos que tinham morrido após uma longa permanência nela. Então lembrei subitamente que, mesmo tendo sucesso em abater meu antagonista, eu nunca contemplaria a sua forma, pois minha tocha há muito apagara e eu estava completamente desprovido de fósforos. A tensão no meu cérebro agora era espantosa. Minha fantasia desordenada evocava formas hediondas e temíveis na escuridão sinistra que me envolvia e que na realidade parecia fazer pressão sobre meu corpo. Então os passos medonhos começaram a se aproximar cada vez mais. Achei que deixaria escapar um grito estridente, mas mesmo que fosse suficientemente indeciso para tentar algo do gênero, minha voz mal responderia, pois estava petrificado e preso ao chão. Eu duvidava se o braço direito me deixaria arremessar um projétil quando chegasse o momento crucial. Nesse instante o pat, pat regular dos passos se aproximava e agora estava muito próximo. Eu podia ouvir a respiração cansada do animal, e, aterrorizado como estava, percebi que ele tinha de vir de uma distância considerável, já que estava similarmente fatigado. De repente o feitiço foi quebrado. A mão direita, guiada pela minha audição sempre confiável, jogou com força total a pedra afiada de calcário na direção do ponto no escuro de onde emanavam a respiração e os passos; e, para meu deleite narrativo, quase acertou o alvo, pois ouvi a criatura pulando e pousando um pouco distante, onde pareceu fazer uma pausa.

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Tendo reajustado a mira, lancei o segundo projétil e dessa vez mais eficazmente, pois ouvi tomado de alegria quando a criatura desabou no que parecia ser um colapso completo, e evidentemente permaneceu imóvel no chão. Quase dominado pelo alívio enorme que sentia, cambaleei de costas até a parede, mas a respiração dela continuava em inspirações e expirações pesadas e ofegantes, então percebi que só a tinha ferido. E agora todo o desejo de examinar a criatura passara. Por fim algo associado a um medo infundado e supersticioso entrou em meu cérebro, e não me aproximei do corpo, tampouco continuei a jogar pedras nele a fim de completar o extermínio da sua vida. Em vez disso, corri o mais rápido que pude na direção de onde viera, ou na direção mais próxima disso que conseguia estimar na condição enlouquecida que me encontrava. Subitamente ouvi um barulho, ou melhor, uma seqüência regular de barulhos. No instante seguinte tinham se limitado a uma série de estalos secos e metálicos. Dessa vez não havia dúvida. Era o guia. E então eu chamei, gritei, berrei, até guinchei de alegria quando contemplei nos arcos em abóbada da caverna o brilho débil e bruxuleante que eu sabia ser a luz refletida de uma tocha que se aproximava. Corri para encontrar o clarão e, antes que pudesse compreender realmente o que tinha ocorrido, já estava deitado no chão aos pés do guia, abraçado nas suas botas e tagarelando inarticuladamente do jeito mais idiota e sem sentido, despejando minha história terrível e ao mesmo tempo cobrindo-o com declarações de gratidão, apesar de orgulhar-me de minha reserva. Por fim, acordei para algo próximo de minha consciência normal. O guia havia observado minha ausência com a chegada do grupo na entrada da caverna e a partir do seu próprio sentido intuitivo de direção passara a investigar minuciosamente os desvios logo à frente de onde ele havia falado comigo pela última vez, localizando meu paradeiro após uma busca de em torno de quatro horas.

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Assim que ouvi esse relato, senti-me encorajado com a luz e a companhia e comecei a refletir sobre a estranha fera que tinha ferido bem próximo dali no escuro. Sugeri que verificássemos, com a ajuda das tochas, que tipo de criatura fora minha vítima. Então voltei sobre meus passos, dessa vez com a coragem nascida da companhia, para a cena da minha experiência terrível. Logo divisamos um objeto branco sobre o chão, um objeto mais branco do que o próprio calcário reluzente. Avançando com cuidado, soltamos uma exclamação simultânea de espanto, pois de todos os monstros esquisitos que qualquer um de nós vira em vida, esse possuía um grau incomparável de estranheza. Parecia ser um macaco antropóide de grandes proporções, fugido talvez de algum show de feras itinerante. Seu cabelo era branco como a neve, algo sem dúvida devido à ação descorante de uma longa estadia no breu do confinamento de uma caverna, mas era também surpreendentemente magro, em grande parte sem pêlos, a não ser na cabeça, onde era de um comprimento e profusão que caía sobre os ombros com uma abundância considerável. O rosto estava voltado para o outro lado, visto que a criatura deitava quase diretamente sobre ele. A curva dos membros era bastante singular, o que explicava, entretanto, a alternação no seu uso que eu observara antes, e através da qual a fera usava algumas vezes todas as quatro patas para progredir e em outras ocasiões apenas duas. Das pontas dos dedos das patas, estendiam-se longas garras como as de uma ratazana. As patas não eram preênseis, fato que atribuí à longa permanência na caverna que, como havia mencionado antes, parecia evidente pela brancura impregnada e quase fantasmagórica tão característica de toda sua anatomia. Ele parecia não ter rabo.

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A respiração agora tornara-se bastante fraca, e o guia puxou a pistola com a intenção evidente de eliminar a criatura, quando um som repentino emitido por ela fez com que a arma caísse no chão sem ser usada. O som era de uma natureza difícil de se descrever. Não era como o timbre normal de qualquer espécie de símio conhecida, e me pergunto se essa qualidade antinatural não era resultado de um silêncio longo, continuado e absoluto, quebrado pelas sensações produzidas pela chegada da luz, algo que a fera não podia ter visto desde a sua primeira entrada na caverna. O som, que eu poderia tentar descrever como sendo um tagarelar inarticulado, seguia cada vez mais fraco.

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Então, de uma hora para outra, um espasmo fugidio de energia pareceu trespassar a carcaça da fera. As patas se mexeram convulsivamente e os membros se contraíram. Com um movimento reflexo, o corpo branco rolou para o lado de maneira que o rosto voltou-se para nossa direção. Por um momento fiquei tão aterrorizado com os olhos que se revelavam que não observei nada mais. Eles eram escuros, aqueles olhos, de um âmbar-negro, num contraste terrível com o cabelo e a pele cor de neve. Assim como os olhos de outros moradores das cavernas, eles eram afundados nas suas órbitas e inteiramente destituídos da íris. Quando olhei mais proximamente, vi que faziam parte de um rosto menos prógnato do que o de um macaco médio e infinitamente menos peludo. O nariz era bem-definido. Enquanto olhávamos pasmos para o quadro fantástico diante da nossa visão, os lábios grossos abriram-se e vários sons foram emitidos deles, após o que a criatura relaxou na morte.

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O guia agarrou a manga do meu casaco e tremia tão violentamente que a luz sacudia em espasmos, jogando sombras estranhas e rápidas sobre as paredes. Não fiz movimento algum e fiquei rigidamente parado com os olhos horrorizados fixos sobre o chão à minha frente.

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O medo deixou-me, e o assombro, a surpresa, a compaixão e o respeito sucederam-se no seu lugar, pois os sons emitidos por aquela figura ferida e agora estendida sobre o calcário nos contou a verdade aterradora. A criatura que eu matara, a fera estranha da caverna inescrutável, era, ou fora um dia um HOMEM!!!

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21 de abril 1905.

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sábado, 11 de julho de 2009

On the road and far away (final)

By N.E.I.'.


Esta é a última parte do conto, espero que gostem. :)

* * *

Conversaram durante o trajeto, o interesse parecia mutuo, sorrisos e gracejos, entraram na cidade. Beijaram-se (no rosto), Steph desceu e seguiu seu caminho, Carlos retornou, agora a trilha sonora era rock´n´roll - Iron Maiden correndo solto -, Be Quick or Be Dead, a estrada estava escura, sinalização zero, somente os faróis. Carlos cantava com a música.

À frente uma bruma verde se formava, havia uma bifurcação a estrada, Carlos estacou, parou e ficou observando aquela bruma. Ela se movia, baixa e densa. Carlos estacionou o carro no bico da bifurcação e saiu. Seguiu a pé até o local, a bruma ainda se mexia, parecia se ampliar...e ele foi ao encontro, parecia hipnotizado ou enfeitiçado, aquela força da natureza era maior do que sua vontade de resistir.

Sons ao longe, sons surdos, ele já estava envolto pela bruma, andava com os braços para frente para não trombar numa árvore, a visão era quase zero, caminhava devagar, compassado, parecendo um zumbi. Os sons ficavam mais fortes, mas ainda estavam distantes, ele ouvia vozes, pareciam humanas, mas não reconhecia a língua. Pisou numa raiz, quase torceu o pé, mas nem mesmo a dor da torção lhe perturbou, continuou seguindo aqueles sons.

Na chácara, Débora começou a ficar inquieta com a demora do marido, ligava no celular, mas ninguém atendia, o celular estava no carro. A irritação crescia, mas não havia muito a fazer. Não havia para quem ligar, não havia carro e ninguém seria louco o suficiente para sair a pé da chácara, na escuridão, seguindo por uma estrada de terra riscada na mata fechada, sendo assim, ela foi tomar um banho e foi se deitar, ou tentar. Zeca e Mara ficaram na sala, vendo um filme e namorando. O sono estava distante, eles assistiam uma comédia romântica e se beijavam. Champanhe e morango sobre a mesa, mas pouco consumidos, estavam mais interessados um no outro. O tempo passava...

Carlos avistou um vulto, um vulto branco que lhe aguardava, não havia rosto, apenas um corpo semi-materializado, uma sombra branca, ou seja, um vulto branco se movendo na bruma. A mão estendida, aguardava por ele. Um vacilo, pequena hesitação, mas não sentiu medo, seguiu em direção e estendeu sua mão. Elas se encontraram e a bruma cessou.

Ele se encontrava numa clareira, rodeado por pessoas encapuzadas e descalças. Na verdade ele reconheceu logo onde estava: era um ritual druida. A questão era: como poderia um ritual druida em pleno interior de São Paulo? Não era, parecia, mas não era. Tratava-se de um ritual wicca, cuja sacerdotisa ele reconheceu pela silhueta, mesmo sob o manto: Stephanie!

Ela abaixou o capuz e sorriu para ele: - Então você recebeu meu recado, desde que desci do carro estou mentalizando sua vinda para cá, enviando sinais para testar o grau de percepção da sua mente, pelo visto eu acertei na escolha. Seja bem-vindo e junte-se a nós porque o ritual ainda não acabou. Sente-se em volta e observe.

Débora se debatia na cama, rolava de um lado para o outro, suava, a coberta incomodava, atirou longe o travesseiro, deitou-se ao contrário, se debatia. Mara e Zeca haviam adormecido na sala, no sofá-cama.

Findo o ritual, que não será detalhado aqui, regressaram pela mata, lado a lado, conversando sobre o que se passou naquela noite, Carlos interessadíssimo no que havia presenciado, na verdade agora ele entendeu que sua atração por Steph não era amorosa, mas sim fraternal. Eles tinham alguma ligação mental que não sabiam explicar, mas que era muito mais do que o sentimento homem-mulher, transcendia o carnal. Débora agora dormia profundamente, um sorriso em seus lábios, o semblante limpo e ronronava.

Regressaram à chácara, o dia ainda não havia amanhecido, se despediram e cada qual foi para seu quarto.

Carlos entrou, viu o casal de amigos abraçados na sala, desligou a tv, apagou a luz e foi para seu quarto. Tomou uma ducha rápida e se deitou, abraçando a esposa.

O dia seguinte seria maravilhoso, mais piscina, mais cerveja, mais picanha, e agora cada peça encaixada em seu lugar, harmoniosamente formando um pentagrama perfeito, com cinco pessoas, cinco pontas, todas iguais e ao mesmo tempo independentes e perfeitas.

FIM

* * *

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